CÉSIO 137:
30 anos de um inimigo invisível
selo radioativo de fundo.

O maior acidente radioativo em área urbana do planeta completa 30 anos no próximo dia 13. Marcada por histórias de sofrimento, descaso e desinformação, a tragédia ocorreu em Goiânia, na vizinhança da capital do país. A partir dos relatos dos principais personagens, o Correio Braziliense reconta, na série de reportagens Césio 137: 30 anos de um inimigo invisível, os episódios que resultaram na morte de pelo menos 66 pessoas e na contaminação de 1,4 mil.

O trabalho investigativo aprofunda as causas e as consequências do acidente que, em termos de contaminação, perde apenas para o desastre da Usina Nuclear de Chernobil, na antiga União Soviética, em 26 abril de 1986. Na capital goiana, a lista de contaminados atinge gerações e cresce a cada ano, sem que se alcance dados concordantes das autoridades públicas. Após 30 anos, muitos ainda lutam não só para serem reconhecidos como vítimas, mas também contra o esquecimento.

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A cápsula da morte

Crédito: Marcelo Ferreira/CB/Reproducao CARA. Brasil. Goiania - GO. Goiania 30 anos do acidente com o cesio 137.
Isolamento na Rua 57, no setor Central de Goiânia, um dos principais focos de contaminação

Essa história começa em 1987. Mais precisamente em 13 de setembro. É na capital goiana, a cerca de 210 quilômetros do Distrito Federal, onde uma série de eventos trágicos se sucederam à abertura de uma cápsula com césio 137. Naquele início de tarde marcada pelo calor intenso e seco, com temperatura acima dos 35º C, dois jovens não imaginavam que seriam os responsáveis pelo maior acidente radioativo do mundo em área urbana. Movidos pela curiosidade, pela ignorância e pela necessidade de ganhar alguns trocados, ambos acabaram, também, vítimas do descaso de empresários e da incompetência de autoridades públicas.

O elemento radioativo ficava dentro de um aparelho de raio X abandonado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Setor Central de Goiânia. Pouco depois das 13h, os catadores de sucata Wagner Pereira, então com 19 anos, e Roberto Alves, 22, deixaram o prédio carregando os 122kg do equipamento, dividido em dois cilindros. De lá, seguiram para a Rua 57, onde, a marretadas, liberaram, pela primeira vez, o césio no ambiente. A partir de então, o pó branco de brilho azul circularia por pelo menos quatro setores de Goiânia e contaminaria centenas de pessoas em poucos dias e milhares, em anos.

Oficialmente, o governo de Goiás reconhece quatro mortes causadas pela radiação. Além delas, 12 pessoas contaminadas morreram nas últimas três décadas — há 10 anos, eram 10. Mas levantamentos de sindicatos, associações e do Ministério Público de Goiás indicam pelo menos 66 óbitos e cerca de 1,4 mil vítimas contaminadas. Além das famílias humildes que, sob encantamento, tiveram contato direto com o material, médicos, enfermeiros, bombeiros e policiais militares sentiram os efeitos da radiação das mais diversas formas, seja pela manipulação, seja pela simples aproximação. Muitos deles trabalhavam para o Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e para a construtora Andrade Gutierrez. Ficaram doentes ao serem obrigados a integrar as equipes de segurança, de descontaminação e de remoção dos rejeitos.

Crédito: Marcelo Ferreira/CB/Reproducao CARA. Brasil. Goiania - GO. Goiania 30 anos do acidente com o cesio 137.
Leide das Neves: vítima da tragédia aos 6 anos

Ainda hoje, muitas dessas pessoas lutam na Justiça pelo direito de receber indenizações, pensões, medicamentos e assistência médica. Algumas morreram logo após a irradiação, como a menina Leide das Neves Ferreira, 6 anos, que tornou-se símbolo da tragédia nuclear. Outras não resistiram a semanas ou meses de internação — os casos mais graves seguiram para tratamento intensivo no Rio de Janeiro. Trinta anos depois, alguns sofrem sequelas da exposição nuclear, como tumores e doenças crônicas. Em situações mais extremas, cuidam de feridas que insistem em reabrir. Já o trauma, todos o carregam.

A responsabilidade sobre o acidente recaiu sobre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), os proprietários do IGR e o Instituto de Previdência e Assistência Social de Goiás (Ipasgo). Inicialmente, admitiu-se o número de 621 vítimas, entre mortos e contaminados. Dividiram-se, então, as vítimas em três grupos, mas apenas o primeiro teve direito a pensão indenizatória. Nesse ponto, as divergências cresceram, levando a ações propostas pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) contra a União e o estado, respectivamente.

Nesse contexto, qualquer pessoa que trabalhou na descontaminação e tem doença crônica pode entrar com pedido de indenização. Está na lei

Marcus Antônio Ferreira Alves promotor do Ministério Público de Goiás

Reconhecimento legal

A Lei Estadual nº 14.226, de 2002, determina o pagamento de pensões especiais “às pessoas irradiadas ou contaminadas que trabalharam na descontaminação da área acidentada com o césio 137, na vigilância do Depósito Provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente”. A norma inclui, ainda, descendentes até a segunda geração e portadores de moléstia considerada grave ou crônica. A legislação passou por três atualizações a fim de correção dos valores estipulados nas indenizações.

Em 2000, o MPGO conseguiu que o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, reconhecesse mais vítimas não contabilizadas anteriormente. Entre termos de ajustamento de conduta (TAC) e inquéritos civis públicos, essa parcela de contaminados obteve sucessivas vitórias capazes de estabelecer direitos e deveres. Diante da atuação do Ministério Público de Goiás, até julho de 2002, mais de 800 novos envolvidos foram reconhecidos.

02

Ferida que não cicatriza

No dia 23 de setembro de 1987, durante almoço na casa da mãe, Ernesto Fabiano recebeu do irmão Edson uma pedrinha branca, do tamanho de um grão de milho, com a promessa de que, à noite, veria um lindo brilho azul. Sem dar muita importância, Ernesto colocou-a no bolso da calça e caminhou 15 minutos até em casa. Ao chegar, colocou aquilo na gaveta de um criado-mudo. Mas o tempo em contato com o césio 137 foi suficiente para desenvolver uma ferida na coxa direita. Três décadas depois, ela não cicatrizou. “Os médicos disseram que, se tivesse passado mais meia hora, eu teria perdido a perna. Perdi osso, músculo, nervo. Machuca de dentro pra fora, sabe?”

Poucas horas depois, Ernesto começou a sentir os efeitos da radiação: náusea, tonteira e um “trem que ia e voltava na perna”. No dia seguinte, notou um inchaço na coxa, como uma picada de inseto. No hospital, tratou-se a lesão como queimadura. Mais tarde, o estranho diagnóstico foi contestado pelo irmão Edson e pela cunhada, Santana, que, naquele momento, também se sentiam mal e haviam escutado que a tal pedra seria radioativa. “Quando o Edson falou para a minha mulher, a Dalva, que aquela pedra podia ser radiação, ela pegou na gaveta e jogou no vaso sanitário. Isso apavorou todo mundo. Ela (a pedra) contaminou a casa todinha. Perdemos tudo. Saímos com a roupa do corpo”, conta Ernesto.

A família é vítima da tragédia do césio 137 em Goiânia, o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear. Edson dividia muro com o ferro-velho de Devair Alves Ferreira — o homem que, encantado com o pó brilhante que saía de uma sucata comprada de dois catadores, compartilhou a novidade com vizinhos, parentes e amigos. Ernesto esteve no grupo de 12 pessoas encaminhadas ao Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, para tratamento intensivo, depois que a tragédia ganhou dimensão nacional. Lá, morreram as primeiras quatro vítimas: Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair; Leide das Neves, 6, sobrinha do casal; Israel Baptista dos Santos, 22; e Admilson Alves de Souza, 18, funcionários do ferro-velho.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Maria Gabriela: lesões no pescoço pelo contato com o césio

Para Ernesto, os últimos 30 anos foram de dor. Passou por 13 cirurgias na perna e, em alguns momentos, a morfina era necessária noite e dia. “Fui desenganado, queriam amputá-la. Até do exterior veio uma junta médica. Hoje, eu tô bem, tô vivo. Não sou feliz como era antes. Sorrio quando tenho de sorrir e pronto. Ficou uma sequela, uma dor que não acaba. No corpo e na cabeça”, conta o aposentado, que, aos 76 anos, não aceita ser fotografado ou filmado para não reviver o pesadelo de ser chamado de “irradiado” na rua.

A ferida crônica de Ernesto, de acordo com os responsáveis pelo Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.), a antiga Superintendência Leide das Neves (SuLeide), é uma das duas que insistem em reabrir. Além deles, três pacientes dos 22 que tiveram síndrome cutânea da radiação sofrem, esporadicamente, com as lesões. “Estamos vigilantes com esses pacientes para qualquer problema que eles tiverem e necessitarem do nosso atendimento. É uma vigilância constante nesses 30 anos e não vai parar aqui”, afirma o médico José Willian de Oliveira, que atende essas pessoas há 29 anos.

ESQUECIDOS

Entretanto, os serviços oferecidos pelo C.A.R.A. estão na lista das reclamações dos envolvidos no acidente, principalmente, os enquadrados no grupo 3 — apenas os dos grupos 1 e 2 têm direito a assistência a qualquer momento. O presidente da Associação dos Contaminados, Irradiados e Expostos ao Césio 137 (Aciec), João de Barros Magalhães, critica a diferença de tratamento e a falta de reconhecimento.

À época do acidente, João era motorista do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e transportou rejeitos pela cidade. Os dois irmãos, Aparecido e Bento, trabalharam na retirada do entulho. A mãe, Domingas, lavava os macacões dos filhos. Nenhum deles é, oficialmente, vítima. A situação se repete em diversas famílias que brigam na Justiça por uma pensão de R$ 788, hoje defasada em relação ao salário mínimo. Mais de 300, no entanto, conquistaram pensões indenizatórias com base na Lei Estadual nº 14.226, de 2002.

O diretor-geral do C.A.R.A., André Luiz de Souza, explica que 112,8 mil pessoas foram monitoradas no Estádio Olímpico de Goiânia, no período mais crítico do acidente. Ali, 249 apresentaram algum grau de radiação. O grupo foi orientado a trocar de roupa e de calçado. Em uma nova medição, na mesma semana, apenas 129 permaneceram com radiação e foram direcionadas para atendimento. “O resto passou a ter uma vida normal. Eles dizem que são vítimas, mas o Estado os considera trabalhadores. Eles alegam que entraram nas áreas contaminadas, só que quem garante para o estado que a área estava descontaminada são os profissionais da CNEN. É uma polêmica. A gente os respeita”, diz André Luiz. Quanto à falta de assistência, Souza afirma que todos os grupos são atendidos sem distinção no C.A.R.A

Nós só vamos lá uma vez por ano para provar que estamos vivos. Não tem assistência, medicamento. Por que a junta médica de lá não faz um relatório dos remédios que precisamos para a gente conseguir no estado ou no município?

João de Barros Magalhães presidente da Associação dos Contaminados, Irradiados e Expostos ao Césio 137 (Aciec)

Eles dizem que são vítimas, mas o Estado os considera trabalhadores. Eles alegam que entraram nas áreas contaminadas, só que quem garante para o estado que a área estava descontaminada são os profissionais da CNEN. É uma polêmica. A gente os respeita

André Luiz de Souza diretor-geral do Centro de Atendimento ao Radioacidentado (C.A.R.A.)

03

Preconceito desde a infância

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Flávia Maia, repórter do Correio Braziliense

Para os goianos, o acidente com o césio 137 se tornou um passado mais distante do que realmente é. Após 30 anos, as memórias foram se esvaziando pelas ruas do Centro e do Setor Aeroporto, principais cenários da tragédia. Aos poucos, a história foi sendo enterrada com cada uma das vítimas. Aqueles que ainda guardam as cicatrizes tornaram-se vozes solitárias. Tenho 30 anos, assim como o maior acidente nuclear em área urbana do mundo. Crescer após o incidente me permitiu ver como a história foi se distanciando, dia a dia, do goianiense. O “deixar de lado” pareceu o caminho mais confortável para lidar com o preconceito e com o medo espalhado pelo césio 137.

Lembro-me do pavor de parentes que viviam fora de Goiás. Muitos ficaram anos sem nos visitar. Quando questionada por telefone, a minha vó sempre dizia que estava tranquilo e que “não foi tudo isso”. A pouca informação gerou preconceito e negligência. Em 1987, o Brasil vivia a retomada da democracia e existia — e ainda existe — um esforço do governo local em mostrar eficiência e que tudo ficou sob controle.

Credito: CB/Reproducao. Edicao 8942 do Jornal Braziliense - 30 anos do acidente com o Cesio 137 em Goiania em 1987.
Capa do Correio Braziliense na época do acidente em Goiânia

Na vizinhança onde a cápsula foi aberta, pouca coisa mudou. Os imóveis continuaram habitados. As crianças continuaram crescendo. Tenho amigos criados na rota do césio que apenas entenderam o perigo depois de adultos. O hospital abandonado deu lugar a um pomposo Centro de Convenções. Na prática, o caminho do esquecimento contou com a colaboração direta do governo local.

A escola foi o ambiente onde mais ouvi falar do césio 137, do acidente e de suas consequências. Tornou-se matéria obrigatória. Entretanto, o tratamento era dado quase com a mesma impessoalidade com que estudávamos o acidente nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética. Em um ou outro trabalho escolar, nos debruçávamos a pesquisar sobre o que, de fato, ocorreu na nossa cidade. Apenas uma vez visitamos Abadia de Goiás, onde os rejeitos estão depositados. Foi o local em que tive contato com a versão mais completa da história e em que soube de outros personagens, além da Leide das Neves Ferreira.

A verdadeira proporção do acidente sempre me foi passada por pessoas que não viviam em Goiás. Nascer em Goiânia, em um hospital em frente ao local onde a cápsula foi aberta, me obrigou a ouvir os mais diversos comentários — desde o desdém, passando pelo preconceito e chegando a piadas de mau gosto. Por isso, defendo a importância de manter essa memória sempre viva. Não acredito que seja alimentar um trauma. Mas não se pode concretar uma história com o mesmo fim que levaram os objetos contaminados pela substância radioativa.

04

Generosidade fatal

Dono de um ferro-velho na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, em Goiânia, Devair Alves Ferreira era conhecido pela solidariedade e simpatia. A casa, que ficava nos fundos do terreno, estava sempre cheia de gente. E foi justamente pela vontade de compartilhar a alegria que ele distribuiu um pouquinho dos 19g de césio 137 aos mais próximos. Queria que todos vissem a beleza do brilho azul que emanava daquele pó branco. A atitude o colocou como protagonista do maior acidente radioativo do mundo em área urbana, que o Correio reconta na série Césio 137: 30 anos de um inimigo invisível.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Vão de concreto na Rua 26-A, hoje chamada oficialmente de Francisca da Costa Cunha, mostra onde era o ferro-velho de Devair: é proibido construir no local

A novidade havia saído de dentro de uma cápsula do tamanho de um ovo de codorna, acoplada a um cilindro de chumbo comprado de dois catadores de sucata. Sem ter ideia do que se tratava, Wagner Pereira e Roberto Alves já se sentiam mal quando venderam a Devair a peça retirada do prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Ao ver a “mágica” do césio, o dono do ferro-velho se encantou. “Como ele mesmo dizia, ele se apaixonou pelo brilho da morte”, conta o irmão de Devair, Odesson Alves Ferreira.

Devair queria usar as pedras para fazer joias para a mulher, Maria Gabriela. Chegou a passar o pó brilhante em torno do pescoço da companheira em um exercício de imaginação para um colar. Depois, concluiu que um anel seria mais adequado. Odesson conta que teve contato com o césio quatro dias depois de Devair comprar a cápsula.

Ele me ofereceu para eu fazer um anel para a minha esposa também. Coloquei na palma da mão esquerda, apertei e vi que esfarelava. Eu disse: ‘esse troço não presta’. E joguei fora. Graças a Deus, não o vi à noite; por isso, não levei pra casa

Odesson Alves Ferreira irmão de Devair

Caixões de 700kg

As quatro vítimas que morreram no período mais crítico do acidente foram enterradas em caixões lacrados de fibra de vidro revestidos com chumbo para prevenir que a radiação não contaminasse o solo e os lençóis freáticos. O peso de cada um era de mais de 700kg e tiveram de ser colocados com guindastes nas covas — também cobertas por uma larga camada de concreto. No cemitério estão dispostos lado a lado e um grande vão os separam de outras lápides, que seguem a descida do terreno.

O outro irmão deles, Ivo Alves Ferreira, não teve a mesma sorte. Encantado, levou para casa um punhado do pó embrulhado em um pedaço de saco de cimento na intenção de alegrar os filhos: Lucimar, à época com 14; e Leide, 6. Apagou as luzes e jogou tudo no piso vermelho. A mulher, Lourdes das Neves Ferreira, cozinhava um ovo para a caçula. E a menina o comeu com as mãos sujas de césio. A caçula passou mal horas depois e, em um mês, morreu no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro.

No mesmo 23 de outubro, Maria Gabriela, a mulher de Devair, morreu na unidade de saúde carioca. “A gente não tinha ideia do que estava acontecendo. A única certeza é de que morreríamos. Ficávamos imaginando quem seria o próximo. Tanto é que eles chegaram a fazer 11 caixões de chumbo”, lembra Odesson. Motorista de ônibus à época, ele não fez parte do grupo dos 22 que seguiram para tratamento intensivo no Rio de Janeiro, mas enfrenta anos de sofrimento e preconceito por causa das lesões nas mãos.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Lápides das quatros primeiras vítimas no cemitério municipal de Goiânia, o Cemitério Parque: covas são proibidas nas proximidades

Os demais irmãos sobreviveram ao processo de descontaminação, mas nunca mais conseguiram tocar a vida em frente. Devair, sentindo-se culpado, passou a beber demais e deixou de cuidar dos problemas de saúde. Morreu em 1994 com cirrose hepática e complicações oriundas da radiação. Ivo, também em depressão com a morte da filha, passou a desenvolver manias, como cortar papéis. Chegava a fumar seis carteiras de cigarros por dia. Morreu em 2003, vítima de enfisema pulmonar. Com a morte do marido, Lourdes passou a viver sozinha em uma casa em Aparecida de Goiânia, que comprou com a indenização que recebeu do estado. Aos fins de semana, recebe a visita dos filhos e netos.

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A dor e o respeito

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Guilherme Goulart, subeditor do Correio

Esta época do ano é sempre difícil para Lourdes das Neves Ferreira. Em 30 de agosto, a filha Leide, que virou símbolo da tragédia goiana, fazia aniversário. Além disso, o mês seguinte, setembro, ficaria marcado pela contaminação da menina, que morreu internada em hospital do Rio de Janeiro, a mais de 1,3 mil quilômetros da mãe.

Há 10 anos, passei um dia ao lado de Lourdes por conta da série sobre os 20 anos do acidente nuclear de Goiânia, publicada pelo Correio. A dona de casa surpreendeu pela força e pelo equilíbrio. Abriu a casa para a reportagem e passeou por fotos e anjinhos de porcelana, dados pelo marido, Ivo, morto em 2003. Também teve coragem para ir ao cemitério onde Leide está enterrada. Foi um dos momentos em que ela se emocionou. Agora, aos 65 anos, Lourdes quer descanso. Evita entrevistas. Segundo a família, a dor é muito grande. Respeite-se.

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O estigma da Rua 57

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Retirada de rejeitos na rua 57 do acidente com o Cesio-137.
Em 1987, a rua onde ficava a casa de Roberto, um dos catadores que venderam a cápsula, foi toda descontaminada

Três décadas não se mostraram suficientes para amenizar as marcas da tragédia na Rua 57, no Setor Central de Goiânia. Ali, nos fundos do lote 60 e embaixo de uma mangueira, Wagner Pereira e Roberto Alves, sem ter ideia do perigo, violaram a cápsula retirada de um aparelho de raio X no abandonado Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Naquela tarde de 13 de setembro de 1987, o césio 137 entrava em contato com o ar pela primeira vez. E começava a história do maior acidente radioativo do mundo em área urbana.

A casa era da mãe de Roberto, Eunice Santos. No terreno, 30 pessoas moravam amontoadas em barracões alugados. Hoje, um grande vão de concreto substituiu a vida no local. Nas paredes, um grafite lembra o episódio. Apesar de o césio ter se espalhado por quatro setores de Goiânia e de existir o mesmo vazio cinzento em uma rua próxima, a 26-A — lá, ficava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira —, a atmosfera da 57 remete à tragédia. A viela de casas com impressão de abandono parece que parou no tempo.

A maioria dos moradores atuais não estava lá há três décadas, e, com esse argumento, evitam comentar o assunto. A presença da imprensa incomoda. Na residência em frente, a família faz questão de dizer que não “tem a ver com a história”. A do lado, está à venda, assim como várias — a da esquina está anunciada há três anos. Vizinho ao lote, Henrique Souza, 30 anos, mora ali com os pais e o irmão há 10. Ele não tem preocupação, pois vê que, “de vez em quando”, um funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) faz medições. Entretanto, Henrique admite que a família alugou a casa por causa do preço baixo.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Hoje, moradores evitam o assunto e imóveis são desvalorizados

A desvalorização dos imóveis é a principal reclamação. Uma moradora do único prédio da Rua 57 critica o estigma. Ela estava lá em 1987. Há 10 anos, recebeu o Correio em seu apartamento, mas, desta vez, abordou a reportagem com impaciência. “Não aguento mais essa história de césio. Essa cápsula não foi aberta aqui. É tudo mentira, e a gente sofre a vida toda por causa disso”, reclama a mulher, que agora prefere não ter o nome divulgado. O comportamento é compreensível, considerando que ela teve de se mudar da cidade por causa do preconceito enfrentado dia a dia. Por falta de condições financeiras, retornou, dois anos depois, ao que restou de imóveis na família, segundo ela, desvalorizado em 50%.

Dono de um bar no Mercado Popular da Rua 74, Jair Onofre do Prado, 65 anos, também destaca a desvalorização. Na época, tinha uma casa lotérica no local e o acidente atrapalhou o negócio. “Tinha muito preconceito. Ninguém queria chegar perto disso aqui”, conta. O acidente com o césio mudou a vida da família, Jair, mais conhecido como Seu Jajá, morava com a mulher e os dois filhos pequenos em um apartamento no 6º andar no Edifício Célia Maria, em frente ao ferro-velho de Devair. “Tive que sair de casa com a roupa do corpo. Como tinha as crianças, fiquei com medo de voltar. Vendi tudo e me mudei para o interior”, relembra Jair, que só conseguiu negociar o imóvel por metade de preço.

MEMORIAL

Quando a tragédia completou cinco anos, o governo de Goiás prometeu erguer um memorial no local a fim de homenagear as vítimas, valorizar a rua e transformar a dor em alerta. O projeto e a obra seriam um presente do artista goiano Siron Franco. Ao longo do tempo, no entanto, trocaram os governantes e nada saiu do papel. Hoje, só sobrou a ferrugem da placa, fincada no local apenas em 2009.

Por enquanto, a movimentação vem do mercado popular, cuja uma das entradas fica nos fundos da 57. Era assim quando a cápsula esteve ali. Em novembro de 1987, o local passou pela primeira revitalização para tentar afastar o preconceito, mas, sem clientes, os comerciantes abandonaram os espaços. Em 2007, nova empreitada repaginou o mercado. Saíram as bancas de frutas e legumes para dar lugar à música. A partir das 17h, bares abrem as portas e recebem um show a cada dia. Jovens se divertem ali sem saber o que aconteceu na escura e silenciosa rua dos fundos.

07

ENTREVISTA // Carlos Magno, jornalista

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Retirada de rejeitos na rua 57 do acidente com o Cesio-137.

Apedrejaram o caixão, jogaram paus

Por meses, o jornalista Carlos Magno participou da cobertura do acidente com o césio 137 em Goiânia. Assim como os funcionários que fizeram a limpeza e a remoção dos resíduos radioativos, profissionais da imprensa não tinham ideia do risco. Entre as marcas da tragédia, está o momento do enterro das vítimas no cemitério: “Foi terrivelmente horroroso”

Como o senhor entrou na cobertura do acidente com o césio?
No domingo anterior, houve uma corrida internacional de motovelocidade, até então o maior evento que Goiânia tinha sediado na área esportiva. Eu cobri muito e tava de ressaca daquilo, meio cansado. Fui à padaria e vi um anúncio de contratação de uma funcionária que pedia uma moça ‘jovem e branca’. Aí, pensei: ‘A pauta é essa. Vou chegar à televisão e sugeri-la.’ Eu trabalhava na tevê à época. Quando cheguei lá, não deram a menor pelota. Disseram que eu deveria ir à Vigilância Sanitária, onde tinham descoberto alguns ferros contaminados. Fui para lá e só tinha um guarda isolando a área. Ele disse para eu ir ao Estádio Olímpico, que a Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear) estaria lá.

E o que encontrou?
A cena foi assustadora. Havia um monte de técnicos da Cnen, com aquelas roupas de astronauta e aparelhos chamados espectrômetros, medindo a radiação das pessoas, que formavam uma fila gigante em volta do ginásio. O estádio estava interditado e, no gramado, havia um monte de barracas do Exército, com algumas pessoas confinadas. Lembrava um campo de concentração. Fiquei muito assustado.

Até então, não se falava nada sobre isso em Goiânia?
Nada. Depois, surgiu um boato de que o assunto foi escondido até a corrida de motocicletas. O governo nega até hoje, mas faz todo o sentido. Naquele dia, teve uma coletiva e um diretor da Cnen esclareceu essa história que a gente conhece, que o pessoal de um ferro-velho desmanchou a peça de um antigo hospital radiológico de Goiânia e, dela, se extraiu o césio. Aquelas pessoas confinadas eram as da vizinhança do ferro-velho do Devair.

Tinha noção do perigo?
Trabalhava em todos os locais de contaminação. Eu nunca tinha ouvido falar em césio. Veja o descuido da Cnen. Quando conversei com aquele guarda da Vigilância, ele estava sem qualquer proteção no local, naquele momento, de maior contaminação. Os garis foram engambelados com os macacões laranjas que emprestavam certa sofisticação, pois eram parecidos com os uniformes dos engenheiros. Mas só quem tinha equipamento de proteção eram esses engenheiros.

Teve preocupação em ficar doente?
Eu não tinha medo de quase nada. Naquela época, era ingênuo. Hoje, sou mais medroso. À época, cheguei a usar algumas roupas especiais, mas não sei se me protegeu. Em 2015, tive um câncer de reto, mas os médicos descartam qualquer relação com o césio. Também tive um tumor no ouvido, o que me deixou surdo de um ouvido, mas também não tem relação. Não os associo à cobertura. Do césio, ficou uma espécie de trauma na memória, especialmente durante o enterro da Leide, que foi terrivelmente horroroso. Goiânia estava tomada de preconceitos, por culpa também da Cnen. Havia medo, pânico. O cemitério fica em um lugar habitado daqui. Um político insuflou a população, mesmo o caixão sendo de cinco toneladas e revestido de chumbo. Apedrejaram o caixão, jogaram paus, Eu eu lembrava aquela menina que já era vítima do césio. Olhava aquilo e não acreditava.

Uma mulher me chamou no alambrado e me deu um bilhetinho com três nomes. E pediu para eu checar esses nomes. Uma dessas pessoas era a filha dela, Leide das Neves. Fui lá e perguntei para um técnico. Ele disse que as três tinham ido para o Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, e que estavam muito graves. Não tive coragem de voltar lá e contar isso

Mas havia medo?
Teve um episódio que me marcou muito no início. Fui fazer uma entrevista com um rapaz que tinha trabalhado na oficina do Devair. Dizia que não sentia nada e que não via a coisa com aquela gravidade toda. De fato, ele parecia bem, mas morreu uma semana depois. Vi que não sabíamos nada daquilo. Isso dava muito medo. Mas, em nenhum momento, pensei em abandonar a cobertura.

O senhor sentiu desespero na cidade?
Era um clima que beirava o pânico. E as pessoas que moravam perto dos focos de contaminação eram muito discriminadas. Mas, na verdade, todos eram ignorantes em relação ao assunto, o que aumentou o problema.

Como foi a repercussão da cobertura?
Tudo repercutia demais. Quando as pautas começaram a rarear, me mandaram lá para a Rua 57. Tinha uma conhecida que morava num predinho ali e pedi para subir. Aí, eu vi alguns pombos que desciam no local e bebiam a água do terreno. Pensei que eles podiam se contaminar e espalhar a radiação. E fiz a matéria. Todo mundo repercutiu aquilo, uma coisa que eu praticamente tinha ‘inventado’, mas não tinha nada científico. Tive até medo pela repercussão.

O senhor acha que, nesses 30 anos, se aprendeu alguma coisa de política nuclear?
Preocupa-me que a coisa está caindo no esquecimento. Muita gente não sabe mais o que aconteceu, principalmente os mais jovens. Não era para a gente saber os detalhes de tudo, de quantas pessoas morreram e de quê? Era para ter um monumento gigante do Siron Franco na Rua 57. Não fizeram nada. Colocaram uma placa, mas nem tem mais. Às vezes, parece que querem o esquecimento para que não se tenha mais vítimas, mas deixar cair no esquecimento não é bom para ninguém, não é saudável para o país.



08

Em nome da dignidade

Além da dor e do preconceito, as vítimas do maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina são obrigadas a recorrer à Justiça em busca de direitos. A maioria trabalhou na segurança, descontaminação e remoção das mais de 13 toneladas de rejeitos provenientes dos 19g de césio espalhadas por Goiânia, mas, até hoje, pena em busca de reconhecimento.

O calvário judicial é imposto aos trabalhadores do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e da construtora Andrade Gutierrez, além de policiais militares, bombeiros, garis, enfermeiros e médicos. Com o passar dos anos, milhares apresentaram doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e câncer. Problema maior, no entanto, é provar que esses males têm relação com a radioatividade.

O papel do Ministério Público de Goiás (MPGO) é justamente a busca e o entendimento de que, para os servidores públicos, não se trata de um acidente. Naquele momento (limpeza geral), o Estado sabia dos riscos à saúde dessas pessoas

Marcus Antônio Ferreira Alves promotor

Atualmente à frente da Promotoria de Cidadania do MPGO, Marcus Ferreira Alves atuou diretamente na questão do césio entre 2000 e 2002, época em que surgiram as primeiras conquistas efetivas em relação ao reconhecimento das vítimas, ou seja, 13 anos após a contaminação pelo césio. “Tudo começou com policiais tendo tumores no cérebro, mas ninguém dava moral, muito menos o Estado. Fizemos uma extensa e detalhada investigação e conseguimos que o governo federal admitisse a existência de pessoas não contabilizadas anteriormente”, conta Ferreira Alves.

Assim, mais 800 vítimas, além das 621 de 1987, passaram a ser tratadas como contaminadas pelo elemento radioativo. O ápice do trabalho do MPGO veio com a assinatura de termo de ajustamento de conduta (TAC) pelo governo de Goiás. Publicou-se, então, a Lei Estadual nº 14.226, de 2002. A norma determina o pagamento de pensões especiais “às pessoas irradiadas ou contaminadas que trabalharam na descontaminação da área acidentada com o césio 137, na vigilância do Depósito Provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente”. A norma incluiu descendentes até a segunda geração e doentes crônicos.

MORTE

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Funcionários que trabalharam na remoção dos rejeitos lutam na Justiça por reparação

Apesar das vitórias jurídicas, a realidade revela pensões atrasadas, falta de medicamentos e dificuldades de assistência médica. Motorista do Crisa à época do acidente, o presidente da Associação dos Contaminados, Irradiados e Expostos ao Césio 137 (Aciec), João de Barros Magalhães, denuncia que os benefícios não estão sendo repassados à geração seguinte. “As pessoas estão morrendo, e as famílias, ficando desamparadas”, critica. Atualmente, 751 recebem pensões. São 265 pensionistas estaduais e 486 federais, sendo que 116 recebem, cumulativamente, as duas. Magalhães destaca que o valor da pensão estadual está defasado em R$ 149 em relação ao salário mínimo atual, de R$ 937. Procurado, o governo afirma que um projeto para equiparação da quantia tramita na Assembleia Legislativa de Goiás.

A cada ano, o estado recebe, em média, 100 novos pedidos de reparação. A maioria deles acaba indeferido. Vizinha do lote em que a cápsula foi aberta em 1987, Valéria Stefani, os pais e a irmã tiveram de sair de casa com a roupa do corpo. A mãe, Irene, teve 5 minutos para buscar documentos pessoais. A família demorou meses para conseguir outra moradia por causa do preconceito. “À época, a vontade era de fugir, esquecer de tudo aquilo e voltar a viver uma vida normal. Depois, a gente viu que era bobagem, porque o trauma não ia embora”, comenta. Em 2014, os quatro reivindicaram na Justiça a pensão estadual. O juiz alegou prescrição e negou. Agora, o processo corre em segunda instância. Em 5 de agosto deste ano, o pai de Valéria, José Malta Stefani, em tratamento para um tumor no rim, morreu de insuficiência cardíaca.

DOENÇAS

Clínico-geral do Centro de Atendimento do Radioacidentado (C.A.R.A) há 29 anos, José Willian de Oliveira explica que a maioria dos pedidos são indeferidos porque não têm ligação com o acidente. “A lei dita os critérios e não diz que a doença crônica tem de ser relacionada ao césio. Ela não foi bem elaborada, é genérica demais. A gente só comprova se ele tem ou não a doença e quem decide é o Judiciário. Mas os estudos não mostram que a ocorrência de qualquer doença, inclusive, de câncer, em Goiânia, seja diferente da população em geral”, garante Oliveira.

A presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Suely Lina de Moraes, vítima do grupo 2, repudia a informação do médico. Para ela, “os estudos” não mostram, porque não são feitos. Suely pede há anos uma análise epidemiológica da região por onde o césio passou e nunca foi atendida. Ela mesma fez um mapeamento no quarteirão onde ficava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Em cerca de 500m, encontrou mais de 25 casos de câncer, a maioria, em famílias que estavam ali em 1987. “Todo mundo sabe que o cigarro, a comida e a bebida têm chance de dar câncer. Nós temos um fator a mais, o césio. Para a gente, é claro que tem uma incidência maior de câncer aqui”, reclama.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.

Todo mundo sabe que o cigarro, a comida e a bebida têm chance de dar câncer. Nós temos um fator a mais, o césio

Suely Lina de Moraes presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio)

AÇÕES CRIMINAIS

As primeiras condenações pelo acidente radioativo ocorreram ainda em 1987. Em 30 de novembro, o Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO) denunciou Carlos de Figueiredo Bezerril, médico radioterapeuta; Criseide Castro Dourado, também médica radioterapeuta; Orlando Alves Teixeira, médico; Flamarion Barbosa Goulart, físico hospitalar; e Amaurillo Monteiro de Oliveira, médico, por homicídio e lesão corporal culposos (sem intenção de matar ou provocar danos). Todos foram condenados nos anos 1990 a cumprirem penas em regime semi-aberto, à exceção de Amaurillo. Ao recorrerem, o grupo obteve habeas corpus e, na prática, cumpriu oito meses de pena, em regime aberto, e mais de um ano de prestação de serviços à comunidade. Em 1998, a pena acabou extinta por decreto presidencial.

Nos anos 2000, o órgão também atuou em nome das vítimas do césio. Em 2004, fixou o piso de um salário mínimo como valor da pensão federal. Mesmo assim, depois de mais de 500 procedimentos administrativos para assegurar esses direitos até 2010 e sem resposta do poder público, o MPF/GO ajuizou ação civil pública contra a União e o estado de Goiás. O objetivo era resolver o impasse na concessão de pensão federal e acelerar as perícias médicas. Concluiu-se, à época, que perdia-se muito tempo entre o protocolo do pedido administrativo de concessão de pensão e a realização de perícia médica oficial.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Aparelho com a cápsula estava em prédio abandonado

Além disso, em setembro de 1995, o MPF/GO ajuizou ação civil pública contra União, Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o estado de Goiás e o Instituto de Previdência e Assistência Social do Estado de Goiás (Ipasgo), além de Carlos Bezerril, Criseide Dourado, Orlando Teixeira e Flamarion Goulart. Em 2000, todos acabaram condenados a pagar indenizações pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. “Com intensa repercussão nacional e internacional, a atuação do Ministério Público Federal foi decisiva na defesa dos direitos das vítimas do acidente, bem como na responsabilização dos órgãos envolvidos”, explica a procuradora da República Léa Batista Lima, coordenadora do Memorial do MPF/GO.

No caso das pessoas jurídicas, garantiu-se assistência, trabalho de monitoramento e realização de exames às vítimas diretas e indiretas, reconhecidamente atingidas até a 3ª geração. Eles recorreram da decisão e, atualmente, a questão está pendente de análise pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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A luta contra o esquecimento

Encantada com o brilho azul do pó branco que o pai havia levado para a casa, Leide das Neves Ferreira se divertiu com aquilo como faria qualquer criança de 6 anos. Com as mãos ainda sujas, comeu um ovo cozido no jantar. O fato de ter ingerido o césio 137 fez com que Leide se tornasse um foco de radiação, tornando, praticamente, impossível a medição. Estima-se que a menina tinha 2,5 mil rads no corpo — a quantidade considerada moderada para um ser humano é de 20 rads. A morte da menina deu a dimensão da tragédia que a capital de Goiás vivia naqueles meses de setembro e outubro de 1987.

Passada a fase crítica do maior acidente radioativo do mundo em área urbana, o governo de Goiás criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira (FunLeide), posteriormente, transformada em Superintendência Leide das Neves Ferreira (SuLeide), para prestar assistência às vítimas. Entretanto, em 2011, a Lei nº 17.257 dividiu a Suleide em Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.) e em Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos Leide das Neves Ferreira (CEEPP-LNF).

A iniciativa foi malvista pelas associações de vítimas, que, ao longo dos últimos 30 anos, lutam para que o acidente não seja esquecido. “Durante todo esse tempo, não foi feito nenhum esforço oficial no sentido de relembrá-lo. Ao contrário, ao tirar o nome da Leide do centro de apoio, isso ficou muito claro. Ora, o nome Leide é um ícone, um símbolo. Na medida em que a sociedade se esquece, não policia o governo. E, este, se retira cada vez mais do acolhimento às vítimas”, afirma Julio de Oliveira Nascimento, coordenador do Fórum Permanente Sobre o Acidente com o Césio-137. Criado em 24 de abril deste ano, o fórum reúne estudiosos, sindicatos e as principais associações de vítimas. A equipe pretende recompor a história do acidente para além do discurso oficial.

A história oficial é cheia de lacunas e meias verdades, e a população goiana merece conhecê-la por inteiro. Como toda história, quem a esquece se condena a repeti-la

Julio de Oliveira Nascimento coordenador do Fórum Permanente Sobre o Acidente com o Césio-137

O diretor-geral do C.A.R.A, André Luiz de Souza, explica que, em uma reforma administrativa, em 2011, o estado entendeu que deveria dar maior importância às pesquisas realizadas pela instituição. Ele conta que, em uma reunião, inclusive com a presença das associações, chegou-se à conclusão de que seria melhor manter o nome da Leide apenas no centro de pesquisa, por causa da dimensão que teria. “Se incomoda as vítimas, principalmente, as que têm ligações familiares com a Leide, deveriam ter questionado. Aí, surge essa demanda agora, nos 30 anos? É só fazer um requerimento à Assembleia Legislativa e pedir para mudar de novo. Não é um problema”, comenta André Luiz, ressaltando que o objetivo deles também é garantir a preservação da história.

MEMÓRIA

Entretanto, o tempo faz com que a tragédia se apague a cada ano. Tema obrigatório nas escolas de ensino médio em Goiás e até no Distrito Federal na década de 1990, atualmente, muitos jovens não têm ideia do que foi a tragédia nuclear provocada pelo césio. Responsáveis pela Associação das Vítimas do Césio 137, Odesson Alves Ferreira e Suely Lina de Moraes recontam a história em palestras e seminários, mas comentam que o interesse é cada vez menor. “Infelizmente, no Brasil, a memória é curta. E não se aprende nada. Se acontecer outro acidente, eles vão quebrar a cabeça da mesma forma. Vai ser o mesmo pandemônio”, lamenta Odesson.

Até mesmo na Rua 57, outro símbolo do acidente, o caminho segue ao esquecimento. A viela termina no Mercado Popular da Rua 74. Ali, jovens bebem, comem e escutam música diariamente sem imaginar o que aconteceu ali há três décadas. Há 25 anos, os sucessivos governos prometem a construção de um memorial no lote revestido de concreto onde se violou o aparelho que continha o elemento radioativo, mas nada sai do papel.

O projeto, do artista plástico Siron Franco, pretende fazer o visitante entrar em uma cápsula gigante. E o mais importante: um contador de radiação mostrará que não há perigo no local.“Seria maravilhoso. Fica lá aquele terreno sombrio. O memorial transformaria dor em alegria, seria um ponto turístico para tirar o estigma da rua”, acredita Odesson. De acordo com o governo de Goiás, o projeto de construção do Memorial das Vítimas do Césio 137 está na pauta das ações da gestão de Marconi Perillo (PSDB-GO). Está em fase de elaboração do processo de contratação.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Maquete de painel projetado pelo artista Siron Franco

Além disso, Siron Franco montará um painel sobre o mesmo tema. O trabalho, que conta com uma maquete construída, será erguida no Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo). É lá onde as vítimas recebem atendimento médico e fazem consultas e exames, como garantido em lei. O painel terá uma montagem com fotos da época, como se fosse uma grande radiografia. Será pintado, terá 11,80m por 15m, e ficará na sala principal.

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ENTREVISTA// Siron Franco

Esquecer é triste

Qual é o seu envolvimento com o césio?
Cresci na Rua 74, defronte à 57. Em 1987, estava morando em São Paulo quando os meus amigos me ligaram pedindo ajuda porque estavam sofrendo muito. Reuni um grupo de artistas, jornalistas e fui para lá. Era importante mostrar que aquilo era gravíssimo, mas que não precisava ser tratado com preconceito. As pessoas da região estavam sendo massacradas. Foi aí que tive a ideia de fazer uma exposição, pintando com a terra goiana, para mostrar que não era uma cidade contaminada. Viajamos o mundo. Foi meio que um surto, uma resposta àquela crueldade. E teve muita gente que teve medo de ir à exposição, me achando maluco de levar aquela “terra contaminada”.

Você teve medo de se contaminar?
Depois de muito tempo, eu pensei: “Que maluco eu fui”. Se fosse em outro bairro, também reagiria assim? Eu fui chamado por amigos desesperados, mulheres histéricas, que não tinham como sair de lá. Nem pensei em contaminação. Fiquei defendendo-os e, por sorte, não me contaminei, porque fiquei muito próximo. Arrumamos um contador de radiação para ir com os lixeiros aos locais. Era muito difícil para eles entenderem. Quando você lida com a água, você vê; com fogo, você vê; a radiação é invisível.

Por que é importante lembrar essa história?
Esquecer é triste. A humanidade só melhorou com os erros. No Brasil, não damos a menor bola para a história, não cultivamos a memória. Não construímos uma nação. Isso tem de ser uma alerta para que não aconteça novamente. Quem é que sabe como anda o índice de fiscalização? A nação é mais do que soja. É escola, é educação. E a educação gera o cidadão. Sem educação, a gente cai na barbárie.

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Uma cidade para o césio

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Símbolo radioativo na bandeira de Abadia

A história de Abadia de Goiás se confunde com o maior acidente radiológico em área urbana do mundo. Tanto que a bandeira da cidade, emancipada em 1995, é a única no mundo marcada pelo símbolo da radioatividade. O ícone aparece na insígnia, separada da imagem de um boi por outra de uma rodovia, em um fundo em vermelho e branco. Dessa forma, o município de 8 mil habitantes, localizado a 20km de Goiânia, assume a responsabilidade pelas mais de 13 toneladas de lixo contaminado pelo césio 137. Para isso, recebe R$ 70 mil anuais do governo federal, ou seja, R$ 5,8 mil mensais, o mesmo valor há mais de 10 anos.

A região começou a receber o rejeitos em 29 de setembro de 1987, 16 dias após o acidente. À época, houve resistência e protesto da população do então povoado. Com o passar do tempo, a população entendeu que não havia riscos. Como contrapartida às condenações pela tragédia, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) construiu o depósito definitivo no Parque Estadual Telma Ortegal, reserva ambiental distante cerca de 1km do centro do município e às margens da BR-060. Lá, ficam os 10 contêineres marítimos usados para abrigar o material radioativo, enterrados em dois pontos diferentes dos 32 alqueires do parque. Os espaços são cercados com placas de concreto de até 25cm de espessura. Dentro deles, há 1,3 mil caixas e 4,2 mil tambores. A estimativa dos especialistas é de que o material representará risco ao meio ambiente por 300 anos.

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Protesto em Abadia contra os rejeitos do césio

No parque, também ficam os prédios da Cnen. Os técnicos da comissão, vinculada à Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento, são obrigados a monitorar o local constantemente. “Ficamos atentos a planos emergenciais, à segurança e às condições físicas do depósito. Coletamos amostras de água em até nove pontos específicos”, conta Rugles César Barbosa, servidor do Cnen e coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), no Parque Telma Ortegal.

A inauguração do CRCN-CO ocorreu em 2005, cinco anos após ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO). Desde então, mais de 40 mil pessoas assistiram a palestras e andaram sobre o monte que se formou com o depósito do lixo atômico. A maioria é criança e adolescente, estudantes dos ensinos fundamental e médio. “Desenvolvemos pesquisas, como da água em termos radiológicos, em um convênio com a Companhia Saneamento Goiás (Saneago), e também programas de mamografia. Tudo como contrapartida ao acidente”, conclui Rugles.

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O legado de uma tragédia

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
O Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste foi construído em Abadia de Goiás como contrapartida ao acidente

Trinta anos após o acidente radioativo em Goiânia, resta a dúvida sobre a eficiência brasileira em caso de tragédia semelhante. A partir do trabalho específico de descontaminação e remoção dos rejeitos do césio, a partir de 1987, o país investiu em pesquisas, estudos genéticos, planos emergenciais de segurança e ampliação do potencial nuclear, com a usina de Angra 3. Mas, assim como as instalações em construção em Angra do Reis, no Rio de Janeiro, o setor encontra-se cercado de polêmicas e desconfianças.

As últimas três décadas resultaram, por exemplo, na extinção do Programa Nacional de Atividades Nucleares, que deu lugar à Política Nuclear. A responsabilidade sobre a iniciativa é da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), autarquia federal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A verba, no entanto, é limitada. Cerca de 45% do orçamento total, de R$ 255.146.758, está contingenciado pelo governo federal, ou seja, a comissão conta com R$ 140.186.897 para fiscalizar 9,6 mil fontes radioativas espalhadas pelo Brasil.

Com esta verba, a Cnen controla, ainda, as aquisições de fontes radioativas — em 2016, foram avaliadas 2.426 solicitações de importação e 167 de compra de fornecedores nacionais. O dinheiro também garante o funcionamento de 14 unidades da Cnen, entre a sede do Rio de Janeiro, institutos de pesquisa, laboratórios, agências distritais e escritórios regionais, distribuídos em nove unidades da Federação. Uma delas — o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) — fica em Abadia de Goiás, ao lado de Goiânia. Foi erguida justamente para abrigar as 13 mil toneladas de resíduos provenientes da contaminação pelo césio 137.

MEMÓRIA

De vilões a vítimas

Roberto dos Santos Alves, 51 anos, e Wagner Mota Pereira, 49, tentam se manter no anonimato desde a tragédia. Apesar de serem vistos como vilões, a Justiça os inocentou, determinou reparação indenizatória e os reconhece como vítimas. Os dois carregam nos corpos as marcas do acidente. Roberto teve de amputar o braço direito e ainda mora em Goiânia. Procurado, não quis manifestar-se. Wagner mudou-se para o interior do estado após o processo de descontaminação. Não dá entrevistas. Sofre até hoje com lesões nas mãos e nos pés, que, segundo médicos, precisam ser amputados.

Desde o acidente nuclear goiano, quando dois catadores de sucata retiraram do prédio do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) um aparelho de raio X abandonado e deram início à tragédia que contaminou 1,4 mil pessoas, a tecnologia melhorou. “Aquelas bombas de cobalto e cobre foram substituídas por aceleradores. Àquela época, existia o elemento radioativo emitindo constantemente a radiação. Agora, há um gerador de raio X confiável, que para de emitir quando desligado. O tratamento ficou mais eficaz. E foi o acidente com o césio que acelerou essa mudança”, explica o físico da Universidade de Brasília Araken dos Santos Werneck Rodrigues.

Para Diego Nolasco, doutor em biofísica molecular e professor de física da Universidade Católica de Brasília, o aprendizado ficou em relação à educação. “A grande lição que devemos tirar dessa tragédia faz referência à necessidade de se educar cientificamente o nosso povo. Muitos acreditam que ser educado cientificamente é sinônimo de ser cientista, e isso é um engano. Ser educado cientificamente te confere a competência de avaliar o risco, por exemplo”, afirma. Ele também chama a atenção para o aumento da fiscalização. “A legislação evoluiu com a determinação de que o recolhimento e o armazenamento desses materiais sejam de responsabilidade exclusiva da Cnen, e isso gera responsabilidade legal”, conclui.

Além disso, o acidente nuclear de Goiânia permitiu avanços em pesquisas genéticas. O biomédico geneticista Aparecido da Cruz esteve à frente da implementação do Laboratório de Genética do governo de Goiás, responsável pelo monitoramento do efeito biológico da exposição humana à radiação do césio 137. “Um dos primeiros testes de biomonitoramento das populações expostas à radiação ionizante foi o teste de micronúcleo, que relatou um aumento na frequência de micronúcleos das pessoas envolvidas direta ou indiretamente no acidente”, detalha o também professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

Os 30 anos de experiência com estudos sobre o acidente goiano levaram o especialista a algumas conclusões. “Os dados de mutação germinativas em cópias do genoma são promissores e têm sido selecionados para discussões com especialistas nacionais e estrangeiros. Estudos de monitoramento são importantes para entender como o genoma humano se comporta frente a uma exposição em baixas doses ao césio 137”, comenta Cruz.

Apesar de o risco relativo ter aumentado entre os radioexpostos, os agravos não aumentaram. Portanto, não se pode estabelecer a causa como sendo a exposição à radiação

Aparecido da Cruz biomédico geneticista

A atuação do Ministério Público de Goiás (MPGO), porém, conquistou o reconhecimento do Judiciário nesses casos. Qualquer trabalhador da descontaminação dos rejeitos com doença crônica pode entrar com pedido de indenização, como previsto em lei. “São pessoas que se sacrificaram em nome da comunidade. A coisa mais importante hoje é o futuro. E se acontecesse de novo? Estaríamos preparados?” questiona o promotor Marcus Antônio Ferreira Alves, que atuou diretamente na questão do césio entre 2000 e 2002.

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Retomada de Angra 3

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Projeto de construção de Angra 3 foi feito na década de 1970

A desinformação e o despreparo que marcaram a história da capital goiana trazem à tona a preocupação se o país estaria preparado para lidar com uma tragédia em proporções maiores, como a explosão de um reator em uma usina nuclear. Um dos projetos mais polêmicos é o de Angra 3, o terceiro da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, no Rio de Janeiro. “Em Goiânia, eram 19g de césio. Se uma usina explode, serão toneladas de césio, plutônio e outros. É uma insanidade. Infelizmente, as lições não são aprendidas no Brasil”, comenta Chico Whitaker, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Irmã gêmea de Angra 2, a usina começou a ser construída em 1984, baseada em um projeto de 1970. Dois anos depois, dificuldades políticas e econômicas — além do trágico acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia — fizeram Angra 3 voltar para a gaveta. Com a chegada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2009, a obra foi retomada. “O principal problema é que eles continuaram com o mesmo projeto da década de 1970, sem levar em consideração a possibilidade de fusão do núcleo do reator, como no acidente ocorrido em 1979, em Three Mile Island (EUA)”, critica Sidney Luiz Rabello, engenheiro no setor de segurança de usinas nucleares da Cnen.

Em 2010, Rabello participou da equipe de engenheiros que analisaram a obra e identificou a necessidade de atualizações, como a construção de um tanque de retenção no caso de uma fusão do núcleo, o que geraria uma lava radioativa incontrolável. “Apresentamos o relatório, e eles não mudaram nada nos aspectos de segurança, não no que interessa à população e ao meio ambiente. Os projetos atuais no mundo levam em consideração esse acidente, menos aqui. É incompreensível. Felizmente, ainda há tempo de consertar esse perigo”, afirma. A Cnen alerta que Rabello não fala em nome da instituição.

No fim de 2015, as obras da usina pararam novamente. Desta vez, por causa de descobertas de corrupção e lavagem de dinheiro no processo de construção. Cinco ex-executivos da Eletronuclear e dois sócios da VW Refrigeração acabaram detidos preventivamente na Operação Pripyat, desdobramento da Operação Lava-Jato. Até o momento, foram executados cerca de 67% das obras civis da usina. A expectativa é que ela comece a operar na próxima década. O custo soma R$ 7 bilhões, e a previsão é de que se gaste mais R$ 17 bilhões. O governo busca investidores internacionais. Em viagem oficial à China, nesta semana, o presidente Michel Temer avançou nas negociações com a China National Nuclear Corporation.

Eventos lembram a data

  • Conferência Internacional RADIO 2017 — Goiânia, 30 anos depois: compartilhando experiências — De 25 a 29 de setembro. Organizado pela Sociedade Brasileira de Proteção Radiológica (SBPR).

  • Césio 30 anos: eu também sou vítima — De 12 a 21 de setembro. Seminários e atos culturais promovidos pelo Fórum Permanente sobre o Acidente com o Césio–137 e parceiros.

  • Césio 137 — 30 anos do acidente em Goiânia: memórias e reflexões — Em 12 de setembro. Organizado pelo Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO). Além de detalhar a atuação do órgão no período, estão previstos debates, exposição de artes e divulgação do hotsite criado pelo órgão.

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Defesa e acusação

Ao longo da série de reportagens Césio 137: 30 anos de um inimigo invisível, o Correio mencionou os réus da tragédia nuclear. No caso das pessoas jurídicas, garantiu-se assistência, trabalho de monitoramento e realização de exames às vítimas diretas e indiretas, reconhecidamente atingidas até a 3ª geração. Elas recorreram da decisão e, atualmente, a questão está pendente de análise pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Flamarion Goulart, em entrevista ao Correio, há 10 anos

O Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO) denunciou os médicos radioterapeutas Carlos de Figueiredo Bezerril e Criseide Castro Dourado; os médicos Orlando Alves Teixeira e Amaurillo Monteiro de Oliveira; e o físico nuclear Flamarion Barbosa Goulart por homicídio e lesão corporal culposos (sem intenção). Eles foram condenados e cumpriram penas de oito meses em regime aberto, além de um ano de prestação de serviços à comunidade. Em 1998, um decreto presidencial extinguiu a pena.

Bezerril, Criseide, Amaurillo e Goulart trabalham voluntariamente no Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, primeira e maior unidade da Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG). A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação do hospital, que se propôs a fazer o contato com os quatro profissionais. Até ontem, porém, não houve retorno. O Correio também não conseguiu localizar Alves Teixeira. Em setembro de 2007, na série de reportagens sobre os 20 anos do acidente, Flamarion Goulart concedeu uma longa entrevista ao jornal. Ele se defendeu, alegando que não se sentia responsável pelo acidente “de forma alguma”. “A responsabilidade toda é dos donos do IGR (Instituto Goiano de Radioterapia)”, argumentou, à época.

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O que aprendemos?

Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Maria Gabriela, esposa de Devair, morta na tragédia.
Natália Lambert, repórter do Correio

No próximo dia 13, a tragédia nuclear com o césio 137 completa 30 anos. A história é repleta de dor, do início ao fim — se é que existe um fim. Dois jovens, um deles desempregado, entraram em um prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia e retiraram partes de um equipamento para ganhar uns trocados. Ao desmontarem a peça, violaram a cápsula que guardava o pó branco radioativo e deram início ao maior acidente radiológico em área urbana no mundo, como recontado pelo Correio em série de reportagens publicadas ao longo da semana.

Cinco dias depois, venderam a sucata para o dono de um ferro-velho, que, ao chegar em casa, à noite, reparou no brilho azul emanado pelo césio. Apaixonou-se. Por puro encantamento, distribuiu aquelas pequenas pedrinhas a parentes e amigos, acreditando até se tratar de algo sobrenatural. Os mais próximos passaram mal, os cabelos caíram e os dentes bambearam na boca, mas ninguém se deu conta de que naquelas pedras brilhantes estava a fonte do perigo. Como resultado da ignorância, o saldo de quatro mortos confirmados oficialmente pelo governo parece até descaso. O césio fez quatro vítimas imediatas, entre elas, a pequena Leide das Neves, 6 anos, mas destruiu centenas de famílias e transformou a história de uma cidade.

Não só as pessoas que moravam na região e tiveram de deixar suas casas com a roupa do corpo sofreram as consequências. Funcionários do Estado foram convocados para fazer o isolamento, a limpeza e o transporte e o armazenamento do lixo nuclear. Para além dos diretamente envolvidos, goianos, de um modo geral, sofreram com o medo do desconhecido e com o preconceito. Os relatos são os mais absurdos: isolamento, carros apedrejados, expulsões de hoteis e muitas brincadeiras de mau gosto. Até no Distrito Federal, a mais de 200km de distância, crianças não dormiam à noite com medo de que o tal césio chegasse por aqui.

Trinta anos depois, a pergunta que martela é: “E se fosse hoje, seria diferente?” É inegável que o acidente fez com que a tecnologia evoluísse e trouxesse mais segurança ao país em termos de energia nuclear. Inclusive, em relação à atribuição de responsabilidades. Hoje, qualquer aparelho que emite radiação tem de ser controlado, fiscalizado e recolhido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Quando se teme a punição, a prevenção acontece. Entretanto, todo esse pandemônio foi causado por 19g de césio 137 — uma colher de sopa cheia. E se o país tivesse que lidar com a explosão em uma usina nuclear que geraria toneladas de resíduos? Estaríamos preparados? O projeto obsoleto, de 1970, e tomado pela corrupção da usina de Angra 3, em construção no Rio de Janeiro desde 1984, é um exemplo de que a resposta é negativa.