Caminhos até 2030
os desafios dos transportes para o acordo de Paris

Combate às marcas da poluição

Três anos depois da assinatura do Acordo de Paris, cidades do mundo inteiro encaram o desafio de diminuir a emissão de gases de efeito estufa. O setor de transportes é um dos principais vilões — só no DF, é responsável por 49,05% de todas as emissões.

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Durante 4,5 bilhões de anos, a Terra passou por mudanças climáticas que alteraram o modo de vida dos seres humanos. Ao mesmo tempo em que a civilização se desenvolve, reflexos desse crescimento deixam marcas pelo mundo. Estiagens prolongadas, furacões e aumento do nível dos oceanos estão entre os fenômenos que levaram representantes de 195 países a Paris, na França, em 2015, para fechar um acordo que pudesse resolver o problema.

O desafio é reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e, assim, impedir que a temperatura do planeta continue a subir. Um dos principais culpados pelo desequilíbrio climático é o setor de transportes, responsável por quase um quarto dos poluentes espalhados pela atmosfera. O Correio publica, a partir de hoje, a série de reportagens O caminho até 2030: os desafios dos transportes para o Acordo de Paris, e mostra alternativas para garantir o cumprimento das metas de redução de poluentes.

Especialistas em engenharia mecânica e meio ambiente elencam soluções para o setor que passam pela utilização de combustíveis renováveis e investimento em transporte público para reduzir o uso de veículos particulares. As consequências de postergar as mudanças vão desde o aumento de doenças respiratórias até o aumento do nível dos oceanos, o que pode deixar cidades como Rio de Janeiro, Recife e Salvador debaixo d’água antes do fim deste século.

Com menos de 60 anos de idade, Brasília cresceu e ganhou status de cidade grande. A frota de automóveis do Distrito Federal é uma das que mais aumentam no país. Junto disso, sobe também a quantidade de poluentes lançados na atmosfera. O setor de transportes é responsável por 49,05% de todas as emissões locais. Desses, 70% são emitidos por veículos particulares. Os dados são do Inventário de Emissões por Fontes e Remoções por Sumidouros de Gases de Efeito Estufa, estudo do Governo do Distrito Federal que analisou o ar da capital federal entre 2005 e 2012. Essa é a única análise governamental feita sobre os causadores da poluição no DF.

Dispersão de poluentes

 Ônibus solta fumaça do escapamento, na Estação Rodoviária de Brasília.

Diferentemente do resto do país, Brasília não tem uma forte indústria, nem sofre queimadas de grandes proporções, o que deveria resultar num céu sem poluição. O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) monitora, desde 2005, o ar da capital federal, com quatro estações. A mais antiga, instalada na Rodoviária do Plano Piloto, apresentou, em junho deste ano, Índice de Qualidade do Ar (IQAR) de 124,04 microgramas de partículas presentes a cada metro cúbico de ar.

O nível é considerado inadequado, podendo causar em toda a população sintomas como tosse seca, cansaço, ardor nos olhos, nariz e garganta. Pessoas de grupos sensíveis, como crianças, idosos e aqueles com doenças respiratórias e cardíacas correm o risco de apresentar efeitos mais sérios na saúde.

“No período seco, o ar pode se tornar nocivo a grupos sensíveis, pois a umidade fica baixa e temos uma má dispersão dos poluentes, que ficam acumulados”, afirma Lourdes Martins, analista de atividades do Meio Ambiente do Ibram. “Reduzir os poluentes é uma questão de saúde pública, pois se trata de algo que afeta diretamente a qualidade de vida da população”, completa.

Problema nacional

A nível nacional, o desmatamento é o maior responsável pelas emissões de GEE, mas, segundo a organização não governamental Green Peace, é o setor de transportes o que apresenta maior crescimento, podendo se tornar o principal emissor de poluentes a partir de 2028. “Na grande São Paulo, um estudo nosso mostrou que os cerca de 15 mil ônibus que circulam pela cidade diariamente representam, hoje, cerca de 4 mil mortes por ano devido a emissões de material particulado. Caso o quadro não mude, esse número anual será de 7,5 mil em 2050”, contou Davi Martins, especialista do Green Peace em Mobilidade Urbana.

O cenário de poluição na capital paulista levou à sanção da Lei Municipal nº 16.802/2018, que prevê a substituição de toda a frota de transporte coletivo urbano no município em até 20 anos após a regulamentação. Os veículos usados hoje serão trocados por modelos com fontes de energia menos poluentes. “As cidades e os poderes executivos de cada estado têm um papel fundamental no combate à redução de gases de efeito estufa, criando um cenário que desencoraje o uso de veículos particulares”, constata o especialista do Green Peace.

A partir do Acordo de Paris, os países apresentaram Contribuições Nacionalmente Determinadas (iNDC, na sigla em inglês). A do Brasil, aprovada no Congresso Nacional em setembro de 2016, traça a meta de reduzir emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e 43% até 2030, tendo como referência os níveis de 2005.

A Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente criaram um projeto com sugestões de como reduzir as emissões em setores-chave. Entre eles, o de transportes, que necessitará de investimento de US$ 2,4 bilhões para eficientização de caminhões e ônibus movidos a diesel e mudança modal no transporte de passageiros de automóveis para ônibus e metrô.

Mudança global necessária

O compromisso firmado na 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), tem como objetivo conter, até 2030, o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais. Esse número, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), marca o ponto em que os efeitos das alterações climáticas ainda são suportáveis para o ser humano.

Os principais gases de efeito estufa são o CH4, N2O, O3, halocarbonos, vapor d’água e o gás carbônico (CO2). O último representa, sozinho, 90% dos GEE presentes na atmosfera. A emissão dos gases começou a subir com a queima de combustíveis fósseis no século 17, durante a Revolução Industrial.

“Tivemos uma inércia de 200 anos em relação ao CO2 e, nas últimas sete décadas, emitimos o suficiente para comprometer os próximos dois séculos”, afirma Marcelo Poppe, assessor técnico do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), que emite análises e soluções ligadas a ciência, tecnologia e inovação. “Os GEE criam uma camada na atmosfera. Os raios solares chegam ao planeta, batem no solo e são refletidos de volta, mas essa crosta os impede de sair, criando assim uma ‘estufa’ que prende o calor”, esclarece.

O Instituto Carbon Tracker Initiative (CTI) faz estudo chamado crédito de carbono, que mostra que, desde a Revolução Industrial, foram liberados 500 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, o que fez a temperatura média do planeta subir em 1ºC. Com isso, para evitar que os 2ºC sejam superados, o planeta só tem um saldo de mais 500 bilhões de toneladas de carbono.

O crédito pode ainda parecer grande, mas só o Brasil produz, em média, 2,5 milhões de barris de petróleo por dia e, na queima de apenas um litro de gasolina, são emitidos cerca de 2,269 quilos de CO2 na atmosfera. Os últimos relatórios anuais da World Meteorological Organization (WMO) mostram que recordes de emissões continuam sendo batidas ano após ano. Para o futuro, a situação deve ser ainda pior, pois estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE) antecipam que, até 2040, as emissões do gás derivadas de combustíveis líquidos aumentarão mais de 30%.

Artigo

Por: Carlos Henrique Ribeiro Lima, professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília

Aquecimento Global e a Urgência na Redução das Emissões de Gases do Efeito Estufa

A Terra nunca foi tão quente, pelo menos nos últimos 1.400 anos. Estima-se que as temperaturas mais recentes do planeta jamais foram tão elevadas desde o início da Idade Média. Como causa dominante, a ciência aponta os elevados níveis de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera, resultado do aumento crescente de emissões antropogênicas em resposta ao crescimento econômico e populacional desde a era pré-industrial. A manutenção dessas tendências no futuro impõe sérios riscos ao planeta e deve ser contida.

Com o aumento da temperatura, mudam-se as características da atmosfera e do oceano, que repercutem em modificações nos padrões de chuva, evaporação e eventos extremos. É previsto que o aquecimento global irá amplificar os riscos existentes e criar novos riscos, incluindo um aumento dos desastres naturais, como secas, cheias, ondas de calor, deslizamentos de terra e poluição atmosférica, com impactos severos e irreversíveis na disponibilidade hídrica, ecossistemas, saúde humana e desenvolvimento econômico.

O setor de transportes, em particular, é responsável por uma parcela significativa das emissões totais de GEE. Todavia, investimentos em tecnologia, transporte público e infraestrutura no setor assim como mudanças comportamentais elevam seu potencial de mitigação das emissões. Acredita-se que reduções substanciais nas emissões de GEE só serão atingidas se estratégias de redução forem implementadas com sucesso no setor de transportes.

Dessa forma, o tempo é curto e as medidas a serem tomadas são urgentes. Como o risco não é igualmente distribuído na sociedade, espera-se ainda que os impactos do aquecimento global sejam maiores nas nações menos desenvolvidas e nas populações mais carentes.