Caminhos até 2030
os desafios dos transportes para o acordo de Paris

Força que vem da eletricidade

Menos poluentes que os veículos movidos a combustão, carros elétricos deixam de ser objetos futurísticos e se tornam realidade nas vias das principais cidades do mundo. No DF, há 426 licenciados.

Nos Estados Unidos e na China, veículos movidos a energia elétrica fazem parte do cotidiano da população. Apesar de o Brasil ser um país rico na produção do recurso, o modelo ainda é visto como futurístico por aqui. Preços altos e a falta de informação são os principais entraves para a popularização desse tipo de frota, que não emite gases poluentes. No Distrito Federal, a situação não é diferente: menos de 0,5% dos carros são elétricos. Na terceira reportagem da série O caminho até 2030: os desafios dos transportes para o Acordo de Paris, o Correio mostra como esses veículos podem contribuir para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

Dos mais de 1,2 milhão de veículos licenciados pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), 426 são elétricos. O número coloca Brasília entre as sete unidades da Federação com mais carros desse tipo em funcionamento. No mercado nacional, há apenas um, da marca BMW, em comercialização, que custa cerca de R$ 200 mil.

Usar automóveis que não são movidos a combustão traz uma série de benefícios, tanto para o meio ambiente quanto para a população. Na capital, 49% do dióxido de carbono produzido vem da frota de veículos, segundo levantamento realizado em 2015 pelo Governo do Distrito Federal (GDF). Por serem silenciosos, os motores movidos a energia elétrica também combatem a poluição sonora. Além disso, têm menos peças, o que torna a manutenção mais barata.

O vice-presidente da Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores (Abravei), Rodrigo de Almeida, ressalta que informações detalhadas sobre esses veículos precisam ser divulgadas para a população. “Muitas pessoas não sabem, mas um carro movido a energia elétrica tem o custo de deslocamento até seis vezes menor do que de um automóvel a combustão. Tudo isso compensa financeiramente”, constata.

Rodrigo explica que muitos ainda estão presos ao modelo convencional de abastecimento e se perguntam como realizariam a carga dos automóveis. “Funciona como um telefone celular. Você usa durante o dia e pode recarregar em casa, em uma tomada tradicional. Não tem segredo”, garante.

Com a bateria completa, um automóvel elétrico pode circular até 150 quilômetros e demora, em média, nove horas para ficar totalmente carregado quando plugado a uma tomada convencional. Ainda existem dispositivos de recarga rápida, que conseguem completar a bateria do veículo em até 20 minutos. Em Brasília, existem pontos de abastecimento semirrápidos: até três horas de espera. Eles ficam localizados em frente ao Ministério de Minas e Energia, em shoppings do Lago Sul e no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21.

Mesmo com o atraso em relação a outros países, o vice-presidente da Abravei se mostra confiante em relação ao crescimento do mercado no Brasil. “Temos uma demanda latente reprimida. Na hora que chegarem mais modelos, com preços acessíveis, e o brasileiro experimentar, não vai ter mais volta. São muitos pontos positivos para o meio ambiente e para economia”, destaca. De acordo com ele, até 2019, haverá mais automóveis elétricos disponíveis no país e com preços menores.

Sustentabilidade

Preocupado com a poluição dos automotores, o engenheiro Elifas Chaves Gurgel do Amaral, 63 anos, decidiu construir o próprio veículo elétrico. Em 2008, participou de um curso nos Estados Unidos e aprendeu mais sobre o tema. No ano seguinte, Elifas comprou um Gol G4, ano 2008/2009, e substituiu o motor a combustão por um totalmente movido a eletricidade. Hoje, trabalha realizando esse tipo de conversão.

“O carro se torna mais silencioso e é mais fácil de dirigir. Quase vira câmbio automático, já que, com a terceira marcha, eu consigo ir de 0 a 80km/h”, diz. Elifas afirma que o veículo demora oito horas para ficar totalmente carregado e consegue rodar até 150 quilômetros. Para desenvolver o carro, desembolsou cerca de R$ 60 mil. “A maioria das peças é importada, porque, no Brasil, não temos tecnologia suficiente para desenvolvê-las. Porém, com o tempo, o carro gera tanta economia que acaba compensando o gasto”, constata.

Carro Eletrico. Na Foto Elifas Gurgel, dono do carro.

Segundo o engenheiro, cada R$ 100 usados com gasolina simbolizam cerca de R$ 30 no aumento na conta de energia da casa dele. “O carro tem 30% menos peças, o que ainda me poupa com manutenção. Não tenho que gastar com troca de óleo, nem nada desse tipo”, informa. Para ele, há demanda por esse tipo de veículo, é necessário apenas que eles se tornem mais acessíveis. “Muitos se preocupam com a questão ambiental. A população é curiosa e está interessada, falta apenas oportunidade”, esclarece.

Alternativas

Carros híbridos

Equipados com uma bateria que fornece força ao automóvel, no entanto, grande parte da energia elétrica usa força da combustão da gasolina ou etanol para funcionar. Eles são mais econômicos e poluem menos o ambiente.

Carros híbridos plug-in

Funcionam como se fossem um veículo flex. Quando a carga elétrica acaba, ele passa a funcionar com combustível fóssil ou biocombustível.

Carros totalmente elétrico

Todo funcionamento do automóvel é proveniente de correntes elétricas fornecidas por uma bateria recarregável ou por outros dispositivos portáteis de armazenamento de energia.

Frota de veículos elétricos em 2017

  • 450 mil
    China
  • 100 mil
    EUA
  • 7.240
    Brasil

Você sabia?

Além do biocombustível e da energia elétrica, existem outros formatos de combustíveis ecológicos, como os veículos movidos a hidrogênio e a energia solar, ainda pouco usuais. O Instituto de Física Gleb Wataghin, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem trabalho de produção de motores de hidrogênio. No estudo, quando o gás reage à combustão, produz água. A dificuldade do formato é em armazenar o hidrogênio. No mercado, em 2015, a BMW inovou ao apresentar uma versão do veículo elétrico i8 abastecido, que funcionava por células de hidrogênio.

Transição lenta

O especialista em engenharia de energia da Universidade de Brasília (UnB) Rudi Henri Van Els ressalta que ainda falta muito para que essa transição ocorra. “Existe uma mudança radical do modo de pensar o transporte. Querendo ou não, temos uma estrutura produtiva investida (a do petróleo) e os empresários não querem perder lucro”, aponta. De acordo com ele, mesmo que o investimento em motores energéticos favoreça a economia e o meio ambiente, o mercado tradicional freia o avanço.

“Nos veículos a combustão, temos uma montadora que domina a produção da tecnologia, do motor e das peças. Já nos elétricos, o sistema é simples e adaptável. Poderíamos ter diversos fabricantes fornecendo os materiais e descentralizando o comércio”, acrescenta o professor.

O especialista ainda destaca que o Brasil é um país propício para a propagação dos carros elétricos, já que na maior parte do país a energia vem de hidrelétricas. “Temos países em que a energia é produzida por meio de combustíveis fósseis, o que produz gases poluentes. Aqui, nem isso ocorre e, mesmo que usássemos esse procedimento, seria melhor concentrar e tratar toda a produção de gás em um só local do que deixar a poluição circular dentro das cidades, como ocorre hoje”, frisa.

Investimento local

No Distrito Federal, há incentivo para o uso de veículos elétricos. O Código de Obras do DF (COE-DF), protocolado na Câmara Legislativa em junho do ano passado, traz uma minuta de decreto que orienta estacionamentos e garagens privadas com mais de 200 vagas a disponibilizarem pontos de recarga para automóveis elétricos e híbridos. No total, 0,5% dos espaços deve ter pontos de energia. O GDF também passou a investir no setor. Este mês, o primeiro ônibus 100% elétrico passou a circular nas vias da capital. O coletivo faz o trajeto Rodoviária do Plano Piloto-Esplanada dos Ministérios. Segundo a Secretaria de Mobilidade, ele reduz cerca a emissão de gás carbônico em cerca de 46,8 toneladas, o que representa o plantio de 343 árvores. A previsão é de que, até o fim do ano, mais um veículo passará a funcionar.

Com quatro horas de recarga, o ônibus consegue rodar até 250 quilômetros. Recarregado por um dispositivo específico, desenvolvimento pelo fabricante, o coletivo custou R$ 1,2 milhão, o dobro de um veículo convencional, que custa cerca de R$ 562 mil. “Os veículos têm um custo alto, pois o imposto que é 2,5 vezes maior que os de ônibus convencionais. Hoje, temos um esforço dos governos de todo o Brasil para conseguir incentivo fiscal e reduzir os preços. Com o Acordo de Paris, esperamos que o Ministério de Minas e Energia acompanhe esse debate”, afirma o secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno.

Os moradores da capital também contam com outro meio de transporte movido a eletricidade. O metrô atende cerca de 160 mil pessoas por dia e não necessita de combustíveis fósseis para se locomover. O Executivo local ainda pretende ampliar o serviço e inaugurar três estações até o fim deste ano. No entanto, ainda não traçou um plano completo sobre a matriz energética para os transportes públicos do futuro, mas se diz aberto às inovações tecnológicas e a mudanças nas políticas tributárias federais.