Caminhos até 2030
os desafios dos transportes para o acordo de Paris

Frota cresce mais que a população

Superpopulação de carros nas ruas é o principal causador da poluição dos transportes. No DF, 70% dos gases de efeito estufa emitidos pelo setor vem de veículos privados

Aniversário de Brasília 2012. Trânsito congestinado na Esplanada dos Ministérios.

Na última década, a frota de veículos do DF dobrou e cresceu acima da taxa de aumento populacional. São 1,7 milhão de veículos nas ruas. Se o ritmo continuar, até 2030, serão mais de 2,3 milhões. O número elevado de automóveis está diretamente ligado à expansão da emissão de gases de efeito estufa, por isso, tanto em nível nacional quanto internacional, governos projetam programas de desincentivo ao uso do carro.

Mas não há expectativa de melhora rápida. Estudo da empresa British Petroleum (BP) mostra que o número de veículos em circulação no mundo deve mais do que duplicar até 2035, atingindo a marca de mais de dois bilhões de unidades, sobretudo em função do rápido crescimento das frotas nos países em desenvolvimento, como Brasil, China e Índia.

Cidades como Paris, Madrid e Copenhague implementaram legislações e políticas públicas para reduzir o uso de automóveis, mas se trata de uma realidade ainda distante da capital brasileira. Na avaliação de especialistas, para Brasília acompanhar o modelo das cidades europeias, deve seguir os mesmos passos traçados por lá: investir em um transporte público tão bom que o uso de veículos particulares seja dispensável.

“Criar linhas e corredores exclusivos, como é feito em Brasília, ajuda a mostrar para a população que usar o transporte público pode ser mais eficiente do que o privado”, explica David Tsai, estudioso do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

Há ainda políticas impopulares que podem reverter o aumento da frota, como a cobrança por estacionamentos em áreas públicas e dificultar o financiamento de veículos, mas são ações vistas como secundárias, a serem tomadas após um fortalecimento do transporte público. Tsai completa que a metodologia de redução de poluentes trabalha a partir de três pilares: evitar, mudar e melhorar. “O primeiro ponto é, a todo custo, evitar viagens e, com isso, reduzir a queima de combustíveis.”

Doutor em transportes e professor do UniCeub, Edson Benicio afirma que o transporte público no DF é eficaz, mas não eficiente. “Ele cumpre o papel de levar a população pela cidade, para o trabalho, escola, etc., mas não é atraente o suficiente para convencer alguém a abandonar o conforto, conveniência, praticidade e segurança de um transporte privado.”

Controle de emissões

Engarrafamento em Brasilia, devido a interdição do Eixão Sul onde Viaduto desabou. Eixo Monumental.

Para diminuir os impactos ambientais que uma frota tão grande causa, o Ibram, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) e as secretarias de Meio Ambiente e Mobilidade Urbana do DF se reuniram, no mesmo ano em que o Acordo de Paris foi fechado, para lançar um Plano de Controle de Poluentes Veiculares (PCPV). A proposta acabou não efetivada à época. Após um ano e seis meses parados, os órgãos voltam a se reunir nesta semana para reformular o plano e colocá-lo em vigor.

O objetivo é reduzir em 40% a emissão de gases do setor de transporte no DF. Entre as principais ações previstas está uma fiscalização ambiental feita pelo Detran-DF, que incluiria vistoria da quantidade de gases emitidos pelos veículos para garantir que as manutenções estejam em dia.

A Secretaria de Meio Ambiente será a responsável pelas políticas públicas do PCPV. A expectativa da pasta é de que o programa esteja em execução até o fim de 2019.

O secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, afirma que os planos do GDF não são travar uma luta contra o carro particular, mas, sim, criar um sistema integrado de mobilidade. “Vamos investir em estacionamentos e terminais remotos fora do Plano Piloto, pois você pode deixar o filho na escola, estacionar o carro próximo ao BRT do Gama e ir de transporte público até o trabalho. Isso reduz as emissões e impede que o veículo fique 10 horas parado na área central de Brasília A integração é o que há de mais moderno em mobilidade”, afirma.

Para Fábio, consolidar a integração trará uma mudança gradual em relação ao uso do carro. “Vamos mostrar as melhorias no transporte público e as pessoas vão fazer essa migração de forma natural”, garante.

Ciclovias como alternativa

Uma saída para a poluição dos transportes é substituir o carro pela bicicleta. O governo local prevê ampliar as ciclovias na capital. De acordo com o secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, a previsão é de que, até 2026, o Distrito Federal se torne a cidade da América Latina com maior sistema de ciclovias. Hoje, Brasília conta com 465 quilômetros desse tipo de via.

“Se você usar R$ 2,5 milhões para construir uma rodovia de mão dupla, para construir uma ciclovia da mesma extensão, são necessários apenas R$ 200 mil”, constata. Segundo Damasceno, a extensão das ciclovias do DF deve ser ampliada para 600 quilômetros até o fim de 2018. “Temos espaço, público e configuração para isso”, garante.

Na Foto Bruno Leite, funcionário público vai para o Ministério de bicicleta.

A paixão por bicicletas do servidor Bruno Meireles Leite, 36 anos, começou na infância. Natural de Minas Gerais, ele começou a usar o meio de transporte há oito anos. “Morava na 116 Norte e ia pedalando para a Esplanada dos Ministérios, onde trabalho duas vezes por semana. Com o tempo, passei a fazer isso todos os dias”, conta. Bruno ressalta que teve um aumento na qualidade de vida, já que não precisa mais se preocupar com engarrafamento ou na procura por vagas para estacionar.

Hoje, o servidor mora na 403 Norte e ainda realiza o trajeto de bicicleta para o trabalho. Porém, no ano passado, Bruno virou pai e precisou mudar a rotina. “Ainda vou de bike para o serviço, mas, no fim do dia, pedalo até o serviço da minha esposa, pego o nosso carro, busco minha menina na creche e vou para casa”, comenta. Mesmo assim, o ciclista garante que, quando a filha estiver mais velha, deixará o automóvel de lado. “Eu chego para trabalhar mais animado, com a adrenalina correndo ainda. Quando vou embora, a cabeça dá uma esvaziada e fico mais leve.”

Numerária - Frota do DF

  • 71%
    automóvel
  • 11,5%
    Motocicletas
  • 6,4%
    Caminhonetes
  • 0,7%
    Ônibus

EUA fora do acordo

Em junho de 2017, o presidente americano, Donald Trump, anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Durante a corrida eleitoral, o republicano afirmou, diversas vezes, que o aquecimento global era uma enganação criada pela China para prejudicar as empresas americanas. O ex-presidente Barack Obama assinou o acordo em 2015, e as contribuições do país previam redução em 28% dos gases de efeito estufa, além de transferir cerca de US$ 3 bilhões para os países pobres como forma de apoiar ações na luta contra as mudanças climáticas.

As 10 cidades mais congestionadas do mundo

  • Cidade do México (México)
    59%
  • Bancoc (Tailândia)
    57%
  • Istambul (Turquia)
    50%
  • Rio de Janeiro (Brasil)
    47%
  • Moscou (Rússia)
    44%
  • Bucareste (Romênia)
    43%
  • Salvador (Brasil)
    43%
  • Recife (Brasil)
    43%
  • Chengdu (China)
    41%
  • Los Angeles (Estados Unidos)
    41%

Artigo

Por: Edson Benicio de Carvalho Junior, professor Doutor em Engenharia Civil da Universidade Católica de Brasília (UCB)

O impacto do consumo

O setor de transportes destaca-se como uma atividade essencial à vida em sociedade. A demanda por transporte cresceu rapidamente no século XX estimulando o desenvolvimento econômico e social dos países. Em Brasília, a frota veicular praticamente dobrou na última década.

O setor de transportes brasileiro concentra-se em torno do modal rodoviário, com números percentuais acima da média mundial se compararmos com países de dimensões parecidas com o Brasil. Esse modal está sustentado fortemente no uso de combustíveis fósseis provenientes do petróleo. Os derivados de petróleo respondem por 95% da energia total utilizada pelo setor de transportes em todo o mundo.

Segundo o relatório ano base 2014 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo de energia no setor de transportes brasileiros é de, aproximadamente, 82% proveniente do petróleo e 18% de fontes renováveis. No relatório, o setor de transportes foi responsável por 45,7% das emissões totais de CO². O resultado do uso de combustíveis fósseis (fonte não renovável de energia) é a emissão de milhares de toneladas de gases tóxicos que impactam significativamente a saúde humana, o meio ambiente e ainda estão relacionados com as mudanças do clima e o aquecimento global.

O setor de transportes foi apontado no relatório (R)evolução Energética, do ano de 2016 e elaborado pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), como o de maior potencial para redução do consumo de energia no Brasil até 2050, dentro de um cenário em que as fontes renováveis terão 100% de participação na matriz energética. No cenário proposto, o país teria 75% de biocombustíveis na energia gerada e 25% de energia elétrica. Para tanto, seria necessário um processo de renovação da frota veicular (veículos movidos a energia elétrica e etanol) e migração do transporte rodoviário urbano, por exemplo, para o sistema metroferroviário, que usa energia elétrica. Essas seriam alternativas que reduziriam o impacto ambiental e na saúde e favoreceriam uma melhor mobilidade urbana, ou seja, a condição em que se realizam os deslocamentos de pessoas e cargas no espaço urbano.