Fake News
Memórias de mercenários

Leonardo Cavalcanti

A partir de relatos de três produtores de fake news, o Correio revela os detalhes da montagem das notícias falsas. Especializados em tecnologia e marketing político, esses homens, que chegam a ganhar mais de R$ 500 mil por candidato em períodos eleitorais, têm em comum a capacidade de não deixar rastros.

Com a garantia de anonimato, eles concordaram em contar segredos da guerra na rede — ou pelo menos parte deles. Um dos contatos foi feito em Brasília durante quase vinte horas, divididas em cinco conversas, o outro, numa cidade de Goiás. Um terceiro confirmou informações a partir de contatos telefônicos, mas preferiu evitar maiores encontros.

Ao longo da reportagem, eles serão chamados de mercenários e identificados a partir de letras (das primeiras letras de Fake News) e números. Todos rechaçam a alcunha, mais relacionada a combatentes que trabalham apenas por interesse financeiro.

Preferem ser associados a guerrilheiros, algo referente à luta ideológica. É a primeira das mentiras, num terreno virtual minado, em que os Estados parecem incapazes de reagir e desarmar os explosivos. Como se verá, não é o único problema das autoridades.

O Correio também conversou com mais de 30 investigadores, policiais, marqueteiros, acadêmicos e políticos sobre o poder e a extensão das fake news nas eleições. Por Skype, entrevistou o escritor inglês Misha Glenny, autor de Mercado sombrio — o cibercrime e você e McMáfia — crime sem fronteiras, ambos editados no Brasil pela Companhia das Letras.

Os dois livros de Glenny detalham como criminosos especializados se aproveitam da rede de computadores para enganar pessoas comuns. Os métodos usados, como o anonimato e a técnica de apagar rastros, são parecidos com os da produção das fake news, numa guerra cada vez mais cara à democracia, em que a verdade é a primeira a desaparecer.

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Os recrutas

No minúsculo quarto de hotel da cidade de quase 100 mil habitantes na Argentina, fronteira com o Uruguai, o mercenário FN001 recebe a última chamada telefônica vinda de São Paulo. Depois da viagem de quase 2.000km, alternando trechos de avião e de ônibus, ele finalmente vai encontrar o homem que será o responsável pelos disparos de e-mails contendo notícias falsas contra um candidato a presidente do Brasil.

A primeira tarefa, ao abandonar a habitación e caminhar até uma sala comercial próxima dali, será testar a capacidade do contato local em enviar um lote de mensagens inverídicas para um milhão de e-mails. Os dois desconhecidos, com desconfianças mútuas, conseguem se entender a partir de um portunhol canhestro. O argentino contactado desde a capital paulista por um colega de trabalho do mercenário mostra eficiência na missão.

O que está em jogo é o tempo dos disparos das mensagens. Tal qual uma metralhadora, o equipamento do gringo é capaz de descarregar as notícias no lote de um milhão de e-mails entregues no pendrive. E, assim, o argentino é recrutado para um período de três meses, que, em terras brasileiras, corresponde ao da campanha eleitoral. Com um último aperto de mãos, restava a FN001 pegar o primeiro ônibus de volta ao aeroporto mais próximo e retornar ao bunker das fake news. Era agosto de 2010.

Dias antes, o mercenário estava no escritório da empresa de marketing que o havia contratado para fazer a guerrilha virtual. Ao redor da mesa, 18 integrantes de uma lista de cortes feita pelo Departamento de Recursos Humanos. O grupo era formado pelos mais irresponsáveis, o pessoal que não cumpria prazos e quase sempre estava atrasado para as reuniões.

Tenho uma notícia. Vocês estão demitidos.

Antes mesmo do desânimo geral, a proposta: “Posso recontratá-los caso algum de vocês queira trabalhar com contrainformação”. Sem saber ainda o que aquilo significava, os 18, mesmo apreensivos, toparam o trabalho e assinaram um termo de confidencialidade, que, na prática, não valia de nada, mas simbolizava o caráter sigiloso do trabalho a ser feito a partir dali.

É preciso ter confiança na equipe, pois nesse negócio não se trabalha com freiras. O cara pode não ter a dimensão do estrago que pode causar na eleição, mas sabe que está fazendo algo delicado, suspeito.

Acomodado na cadeira espaçosa de uma cafeteria de Brasília, há duas semanas, FN001 continuou: “É preciso ser leal, pelo menos até os rastros serem apagados”. Os mercenários mais qualificados e mais bem pagos do país — aqui, falamos de, no máximo, 10 pessoas — têm alto conhecimento de informática, comunicação e, até mesmo, de psicologia. Mesmo que, neste último caso, algumas lições se misturem com exemplos rasteiros nas palavras de FN001.

O produtor de fake news não busca que uma notícia falsa se transforme em verdadeira. Ele quer apenas legitimar a dúvida.

Segundo a filosofia de botequim de FN001, o problema da pessoa não é saber se o companheiro é infiel. “Se a pessoa sabe, ou aceita ou acaba o casamento, simples. A aflição está na dúvida.”

A dúvida explica a razão de as fake news não atingirem os militantes fiéis de determinados candidatos. Eles já conhecem o político, o apoiam a partir de pesos e contrapesos bem definidos, algo como, “ele tem lá os seus pecados, mas, ainda assim, é melhor do que os adversários”. Vide o exemplo mais recente, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. A força das fake news foi mais evidente nos swing states, aquelas regiões sem predominância democrata ou republicana.

“Foi em cima dos eleitores desses estados que se concentrou essa tentativa bem-sucedida de manipulação”, disse-me Silvio Meira, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Escola de Direito do Rio da FGV. “A Rússia influiu na eleição americana, contaminando opiniões, talvez de milhões de eleitores, nos locais onde a disputa poderia ser virada”, afirmou Meira, um homem de 62 anos, que é considerado um dos pesquisadores mais influentes na área de tecnologia da informação e um dos pensadores mais atuantes no debate sobre democracia.

“Vivemos um dos pedaços mais complicados da história da humanidade, em que as pessoas não entendem as tecnologias que usam.” Dúvida e confusão, duas palavras do glossário das fake news que parecem conviver muito bem, obrigado, com outras, como algoritmo, filtro bolha, bots, hoax e clusters.

A dúvida pode ser instalada, por exemplo, a partir da alteração do domínio do e-mail de um religioso de alta patente e com capacidade para influenciar rebanhos. Ao manter o nome do usuário desse cidadão, FN001 conseguiu produzir estragos na campanha adversária. Para ampliar os disparos, foi preciso apenas acionar o contato daquela cidade de 100 mil habitantes na fronteira da Argentina com o Uruguai, descrito no início deste texto. Com os disparos feitos a distância, os fiéis da igreja seguiram à risca a recomendação do texto e republicaram a notícia, que pegou como fogo em capim seco.

Uma dessas fogueiras das fakes news está justamente na religião. Em setembro do ano passado, o papa Francisco pediu que a Igreja Católica fizesse uma reflexão profunda sobre as notícias falsas. Fake news serão tema do 52º Dia das Comunicações Sociais, celebrado em 18 de maio. “A verdade vos tornará livres”, escreveu Jorge Mario Bergoglio na conta do Twitter. Segundo a Santa Sé, a Igreja precisa oferecer uma contribuição sobre o tema, propondo uma reflexão das consequências da desinformação e estimular um jornalismo profissional, que “busca a verdade”.

Os observadores do Vaticano pareciam ainda impactados pelos resultados das eleições norte-americanas que elegeram Donald Trump. Uma das mentiras espalhadas na campanha era de que o papa Francisco teria apoiado o republicano.

Aqui, no Brasil, anos antes, em outubro de 2010, a três dias da eleição presidencial, Bento XVI condenou o aborto e pediu que bispos brasileiros orientassem os fiéis politicamente — no que parecia uma clara interferência. Não citava Dilma Rousseff diretamente, mas tal associação com a candidata acabou sendo feita. A petista, na época, reagiu e se disse contra o aborto. “Acho que o papa não tem nada a ver com isso. Aqui ocorreu uma outra coisa, ocorreu uma campanha que não ocorreu à luz do dia. Quem fez a campanha não se identificou, não mostrou sua cara. Foi uma campanha de difamações, de calúnias e algumas delas ao arrepio da lei”, disse Dilma. Na época, a expressão fake news ainda não era popularizada.

A batalha contra as fake news começa no próprio conceito da expressão. Nessa guerra, poucos se entendem, como numa grande babel moderna, que apenas oferece vantagens aos produtores de notícias falsas. É o que explica o segundo mercenário, FN002, localizado numa cidade de porte médio em Goiás:

As pessoas querem replicar as histórias, mesmo sem saber exatamente do que se trata. É algo feito por instinto, querem ser os primeiros a levarem uma informação qualquer para um grupo.

Em pé, próximo à janela do escritório no sexto andar de um prédio comercial, o mercenário nº 2, de gestos rápidos, quase nervosos, fala sem parar. E mostra, na tela do computador, uma série de trabalhos como se quisesse confirmar as palavras. O custo de se produzir informação falsa é a dúvida constante dos interlocutores no fato e no autor. Existem histórias sem finais felizes.

02

A arte da mentira

Existem histórias sem mocinhos. Enquanto os investigadores têm dificuldades em identificar autores de fake news, os mercenários profissionais formam um pequeno grupo especializado em comunicação e tecnologia e, mesmo atuando em times diferentes, conseguem se reconhecer.

Se eu não conseguir achar o cara que fez a guerrilha contra o meu cliente, eu sei quem ele é.

Depois de rir da própria frase, FN002 começa a detalhar o trabalho. Ele tem duas identidades, dois escritórios, dois tipos de clientes. Às vezes tudo se mistura, principalmente quando os contratantes são políticos. Uma parte do serviço é visível, com registros, notas fiscais e funcionários fichados. A outra é secreta, sem qualquer tipo de rastro. Na lista clandestina, que tem em média 18 pessoas, há ex-jornalistas especializados em investigações, técnicos em informática, atores, dubladores — capazes de imitar 30 vozes de políticos e celebridades — e policiais militares.

Não é qualquer policial, tem de ser um oficial para garantir a segurança do bunker. Caso ocorra alguma denúncia, ele precisa matar a investigação no início.

FN002 detalha a contratação de um oficial da Polícia Militar. “Ninguém faz denúncia sobre um escritório que produz fake news, os adversários tentam associar o meu time ao tráfico de drogas ou desmanches, por exemplo”, afirma o mercenário. “Se a polícia der uma batida aqui, o meu oficial toma a frente do caso e afasta qualquer possibilidade de levarem computadores, que poderiam me associar a algum político.”

Entre as “maldades” produzidas por FN002 estão as sátiras, disseminadas no WhatsApp e Facebook. Para além da controvérsia sobre como enquadrar as piadas — acadêmicos divergem se elas são ou não fake news —, FN002 utiliza a mesma rede anônima das notícias falsas.

As tarefas na produção e divulgação das notícias vão das mais simples às mais complexas — e sempre têm uma certa dose de provocações, como o uso de CPFs do candidato adversário em determinada operação. Depois de montar a estrutura da fake news, seja em texto seja em vídeo, e jogar na rede a partir de páginas disponíveis gratuitamente na internet, a missão será impulsioná-la nas redes sociais e garantir maior visualização.

Assim, é preciso comprar um cartão de débito recarregável — “sem análises de crédito ou qualquer burocracia”, como diz uma propaganda na internet — , que pode ser adquirido em lojas de departamento por R$ 15. Numa lan house da periferia da cidade, mais distante possível do bunker, o produtor de fake news precisa habilitar e, na sequência, gerar um boleto para pagamento do cartão em dólares. E aqui vem a tal piada interna, com uso do CPF.

Se o adversário for buscar as pistas da maldade, vai chegar a ele mesmo.

As ações descritas por FN002 são confirmadas pelos outros mercenários ouvidos pelo Correio. A partir daqui, é possível fazer depósitos de US$ 500 por dia para impulsionar as notícias em redes sociais. Para tornar ainda mais complexa a identificação, um terceiro mercenário, FN003, prefere comprar cartões pré-pagos em outros países. “Já fiz encomendas para uma rede de guerrilheiros no Canadá e em países europeus”, disse-me ele, a partir de uma conversa por WhatsApp. “É arriscado comprar esses cartões no Brasil, na minha opinião.”

As formas de os mercenários mascararem as páginas com os links de sites ontendo as notícias falsas são as mesmas usadas por golpistas, fraudadores e ladrões há pelo menos 10 anos na web, tudo a partir da hospedagem em servidores no exterior. A confecção das páginas é feita em computadores comprados de segunda mão que serão descartados para evitar rastros logo na largada, a partir do “endereço MAC”, a identificação dos aparelhos.

Para terminar de apagar os rastros, falta camuflar o protocolo da internet (IP), responsável por enviar as informações que trafegam pela rede, tal qual as cartas postadas. A identificação dos IPs pode desmascarar criminosos e, por isso, um dos trabalhos dos mercenários de fake news, como o de golpistas da rede, é alterar os protocolos com os serviços de proxy. Neles, há duas vantagens para o criminoso em relação aos investigadores, a transmissão de dados criptografados e as mudanças contínuas de IP, que pode estar em qualquer parte do mundo.

De volta ao escritório, entre uma xícara de café expresso e uma lata prateada de energético, FN002, mostra uma pilha de documentos referentes a um processo judicial em que ele não aparece em nenhum momento. “Foi aberto contra um cliente, um candidato. O adversário se sentiu prejudicado, ninguém foi encontrado para responder, e o juiz arquivou, criticando o político que ajuizou a ação”, diverte-se o mercenário.

A maioria dos policiais locais não têm a ideia do que procurar nos computadores.

FN002 acredita — e aqui demonstra um certo alívio — que há um despreparo da polícia brasileira nas investigações contra as fake news. “Mesmo durante uma batida, imagine se os policiais vão se importar com uma série de máquinas, eles não têm a mínima ideia do que está sendo feito no escritório.” De mais a mais, o mercenário de número 2 conta que a maior parte dos trabalhos é arquivada em serviços de nuvens, os servidores remotos, que complicam ainda mais o trabalho de investigadores de cibercrimes.

A mais de 9.000km de distância, em Londres, o escritor inglês Misha Glenny, 59 anos, tem uma opinião parecida com a FN002 sobre a polícia brasileira. Autor de Mercado Sombrio, editado no Brasil pela Companhia das Letras, uma espécie bíblia sobre os ataques perpetrados na internet, Glenny morou na Rocinha para escrever O dono do morro e conhece bem tanto os crimes que ocorrem no mundo virtual e fora dele. Além disso, teve acesso a investigadores qualificados da Polícia Federal que combatem golpes na internet na Polícia Federal.

O país tem muitos usuários de internet competentes, muitos bons engenheiros de softwares, mas as estruturas governamentais do país são subdesenvolvidas.

Glenny, 59 anos, é cético em relação à capacidade da sociedade civil organizada em combater as fakes news, levando a bola de volta para as autoridades. O problema é que há um bate-cabeça no debate sobre fake news, onde qualquer ação mais efetiva do Estado pode ser confundida como censura. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório sobre Imagem e Cibercultura (Labic), Fábio Malini é um dos maiores pesquisadores da rede brasileira e se diz cético sobre os efeitos das investigações e das alterações da legislação para conter as fake news.

A força-tarefa para combater as fake news é irrelevante.

Malini faz referência ao grupo criado por Luiz Fux, ministro do Supremo, com representantes da Polícia Federal e do Ministério Público. Para o professor, a cultura das notícias falsas se desenvolve cada vez mais nas redes sociais privadas, como o WhatsApp, uma definição própria do acadêmico — alguns especialistas veem o aplicativo como um serviço de troca instantânea de mensagens, mas todos concordam na dificuldade de apurar crimes disseminados dentro dos grupos.

Hoje, há apenas três formas de punir os autores de fake news, todas com mais de 30 anos de vigência. Primeiro, o Código Eleitoral, que trata da divulgação de informações inverídicas, é da década de 1960, sem qualquer referência à internet. O Código Penal, que prevê a injúria, calúnia e difamação, é dos anos 1940 e poderia ser usado em última hipótese. Por fim, a Lei de Segurança Nacional, de 1980, que estabelece punições por difundir boatos que causem pânico.

No sétimo andar do Máscara Negra, como é conhecido entre jornalistas o edifício-sede da Polícia Federal, em Brasília, Eugênio Ricas, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado da corporação concorda que o país não está preparado para as fake news nas eleições. “Só estaríamos preparados se fosse possível responder ao crime em poucos dias, sem permitir que as notícias falsas interferissem na campanha”, disse o delegado, que, aos 42 anos, se transformou numa espécie de porta-voz da força-tarefa.

Ricas afirma que a legislação é fraca o que dificulta ainda mais investigações complexas para se chegar aos autores, que usam servidores de outros países e a deep web. O policial acredita que o objetivo da força-tarefa é criar protocolo de atuação dos investigadores, da PF e do MP, e dos magistrados. O segundo passo seria propor minuta de alteração legislativa. O delegado acredita saber qual o perfil dos produtores de fake news: “São jovens com habilidade com internet, uma parte faz de brincadeira e outra para ganhar dinheiro. E nesse meio tem os ideológicos, da direita e da esquerda”. O leque de suspeitos é amplo. Existem histórias sem mocinhos.

03

As buscas

Existem histórias sem rastros. Nos últimos meses da última campanha presidencial no Brasil, FN001 dormia apenas duas noites no mesmo hotel. As trocas constantes de endereços eram uma precaução envolvendo a segurança do mercenário, que levava sempre na mochila o computador. Um simples notebook, descartável, que pode ser adquirido no mercado por R$ 1,5 mil. A máquina servia apenas para se conectar a redes sem fio, mas uma apreensão poderia, nunca se sabe, complicar o candidato que contratou FN001 a peso de ouro.

O mercenário, durante uma conversa com a reportagem do Correio, em Brasília, demonstrou impaciência com os “amadores”. “Há guerrilheiros mais afoitos que acabam deixando rastros ao usar programas, por causa dos dados EXIF”, disse-me ele, que recusa a alcunha de mercenário, preferindo ser identificado como alguém mais ideológico. É uma farsa, o que move o trabalho desses homens, especializados em comunicação e tecnologia, é o dinheiro. Os tais dados abrem a possibilidade de alguém identificar o local onde a foto foi tirada. “A máquina fotográfica grava dados como ISO, abertura, velocidade... Quando grava uma imagem com um Photoshop, ele pode incluir dados que foram usados por quem instalou o programa e desmascarar o produtor de fake news.”

Mesmo com a dificuldade de investigação, alguns mercenários amadores caem na rede dos investigadores. Foi o caso de um empresário do Espírito Santo, indiciado por crime de divulgação de pesquisa fraudulenta. A apuração da Polícia Federal foi iniciada por causa da falsificação de página de um jornal na internet. A fake news revelava um levantamento fraudulento. O caso, com investigação do início ao fim, é tão raro que vai servir de modelo para a força-tarefa criada pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), com a PF e o Ministério Público. Mas todos sabem das dificuldades de caçar um mercenário.

Há uma sofisticação e uma complexidade nas fake news que tornam as investigações e as próprias punições complexas.

Evandro Lorens, diretor da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), é uma figura tranquila, mas não confunda tal qualidade com a resignação. Especialista em arquitetura e segurança da informação, Lorens afirma que ainda há uma imaturidade no país para tratar do tema, mas acredita que investigadores e a própria sociedade serão capazes de evoluir no combate às fake news. Ele traça um paralelo com as primeiras apurações sobre os casos de pedofilia na internet.

No início das apurações sobre os crimes de pedofilia na rede, os peritos não conseguiam avançar porque a legislação apenas autorizava o flagrante no momento da transmissão das imagens das crianças. “Isso complicava muito a apuração. A gente tentava fazer a interceptação, avançava, mesmo com eles usando o proxy, mas não conseguia prender”, lembrou Lorens. Tal ferramenta, o proxy, é usada para criptografar dados e mascarar os protocolos de internet (IP), que identificariam a conexão e o conteúdo das informações. “Mesmo com as buscas e apreensões, o cara não era preso e sumia no mundo, pois o armazenamento do conteúdo pornográfico não era considerado crime.”

O avanço ocorreu com alterações na legislação. O armazenamento de vídeos e imagens passou a ser considerado crime. “Demos a última volta no parafuso com o desenvolvimento de tecnologia, que permitiu a análise dos computadores ainda na residência do criminoso”, afirmou Lorens. Em vários momentos, como no caso do combate à pedofilia, as ferramentas são desenvolvidas pelos próprios peritos. De volta às fake news, ainda estamos longe de avanços, o que faz com que Lorens acredite no desenvolvimento da própria sociedade para se proteger das notícias falsas montadas pelos mercenários.

A própria legislação é antiquada, com leis das décadas de 1940 e 1960, dos códigos Penal e Eleitoral, respectivamente. A mais recente, de segurança nacional, é dos anos 1980, completamente defasada no quesito crimes virtuais. O marco civil da internet, como é chamada a Lei N° 12.965/14, sancionada por Dilma Rousseff, também não ajuda os investigadores.

“Todos têm lados, inclusive juízes. Qual a chance real de uma ação efetiva contra uma campanha presidencial se um magistrado não estiver preparado para perceber o estrago de uma fake news, e simplesmente desconsiderar as apurações”, questionou um investigador federal que preferiu não se identificar. “A força-tarefa vai servir para amedrontar os amadores, que vão pensar duas vezes antes de tentaram produzir fake news. Os profissionais continuarão no jogo.”

Entrevista com MISHA GLENNY

“O Brasil não está pronto para o combate”

O escritor inglês Misha Glenny, 59 anos, apura os movimentos de criminosos na internet. Autor dos livros Mercado sombrio e McMáfia, ele expõe o universo do cibercrime para o leitor comum, com todas as implicações e riscos tanto para os Estados como para a vida privada do cidadão. Se a internet mudou o cotidiano das pessoas, também as deixou reféns a golpes de todos os tipos, a partir de e-mails, aplicativos de mensagens instantâneas e notícias falsas, um tema que cada vez mais é alvo de preocupações de Glenny, que conversou com o Correio por Skype, desde Londres, onde vive. Entre os próximos meses de maio e abril, o escritor vem ao Brasil para revisitar a favela da Rocinha, cenário do mais recente livro, O dono do morro — um homem e a batalha pelo Rio, lançado em 2016.

» O Brasil está preparado para combater as fake news?

Não, eu não acho que o Brasil está preparado de maneira alguma. O país tem muitos usuários de internet competentes, muitos bons engenheiros de softwares, mas as estruturas governamentais do país são subdesenvolvidas. Mesmo quando você olha para os Estados Unidos e para o Reino Unido e o estrago que as notícias falsas causaram nestes países, filtros e barreiras sofisticados estão falhando, e esses artifícios não existem no Brasil. A única vantagem significante do Brasil em relação às fake news é a língua portuguesa, porque os brasileiros conseguem perceber quando algo não foi escrito em português correto. Mas em termos de infraestrutura de proteção contra as fake news, o Brasil não está em uma posição muito favorável.

» Qual o grau da influência russa nas eleições de Donald Trump?

O que acontece é que a situação econômica da Rússia é 10 vezes pior do que a norte-americana. Não dá para competir com armas convencionais e nem com armas cibernéticas. Então, é necessário usar as armas que se tem. E os russos perceberam as fraquezas do sistema democrático dos EUA e da Europa, e como as fake news são um meio artificial muito barato e eles criaram incertezas entre a sua proteção, competidores e inimigos.

» Qual é a responsabilidade de empresas?

Facebook e o Google são editores, apesar de eles dizerem que apenas fornecem manchetes para uma audiência completamente aberta. Mas eles precisam começar a assumir responsabilidades sobre o conteúdo, como os jornais, inclusive os ao vivo, têm.

» Como grupos da sociedade civil podem combater as fake news?

Isso é muito complicado pelo fato de as fake news se espalharem em uma variedade muito grande de websites. Então, acho isso uma armadilha. Não tenho certeza sobre o que a sociedade civil pode fazer sobre isso. Eu diria que isso está mais provavelmente no nível governamental.

» Como combater as fake news sem atingir a liberdade de expressão?

A princípio, as leis de informações deveriam existir também para a internet. Na prática, isso não acontece. E o que você percebe é um debate muito polarizado. O nível de debate on-line é extremamente agressivo e essa, para mim, é maior preocupação. Até mais que as fake news, e, claro, elas estão relacionadas. E as leis aplicadas pela mídia no jornalismo impresso não parece ser utilizada nas mídias sociais. No Reino Unido, houve um aumento de processos contra indivíduos em redes sociais. A polícia tem percebido isso como uma área problemática.

04

A salvação

Não se produz fake news do dia para a noite. Todo o trabalho leva meses. Isso significa que a preparação de um determinado produto deve ser feita ainda no início do ano eleitoral. Neste momento, há grupos rastreando endereços de e-mails e números de telefones. Não duvide, por exemplo, se o celular começar a tocar sem que alguém fale do outro lado da linha, e tudo não passe de testes de uma empresa de disparos de WhatsApp. O endereço do e-mail pessoal esqueça, este já foi rastreado uma centena de vezes.

Mercenários profissionais começam a montar os exércitos de fake news meses antes de uma eleição. Para que pareçam minimamente reais, têm de ser feitos quase manualmente, mesmo com dados e fotos falsas dos usuários, num processo longo de adicionar amigos, curtir páginas — todas aquelas tarefas realizadas pelo cidadão comum dentro da rede social. A partir de impulsionamentos no Facebook, gente contratada por mercenários inicia a manipulação dos falsos perfis, que dão “bom dia”, vão a restaurantes, supermercados e, por fim, espalham as fake news. Na prática, aquele amigo pode não existir, mas tem chances de influenciar alguém. Mas essa é apenas uma parte menor da estratégia. O conjunto do trabalho do mercenário é que faz a diferença.

Umas das ações dos mercenários envolve a mineração de e-mails e números de telefone, depois da compra de grandes lotes de endereços no mercado paralelo de dados. A venda é feita a funcionários corruptos de grandes empresas comerciais, que repassam os cadastros de clientes. O próprio FN003 explica: “Depois de receber todos aqueles dados, é preciso minerá-los. Ou seja, é preciso saber, por exemplo, se os e-mails estão ativos”. A tarefa é fundamental para evitar que os disparos das fake news caíam nas caixas de spam, o que inviabilizaria toda a estratégia. Para o sucesso da operação, é preciso combinar ações específicas para e-mails, Facebook e WhatsApp.

O planejamento é feito com tempo e dinheiro. As operações mais efetivas são tão bem pensadas que chegam a enganar os militantes mais ferrenhos de partidos. FN003 lembra-se da montagem de um site com as cores principais de uma legenda. Ali, ele passou a anexar artigos e exultar, a partir de palavras de ordem, “convertidos” a defenderem causas que o próprio candidato queria isolar na campanha por saber que perderia votos entre eleitores ainda indecisos. A página, com indexação eficiente, ganhou corações e mentes dos militantes mais combativos. O mercenário a partir daí começou a radicalizar o discurso, confundindo os próprios marqueteiros do time adversário.

Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório sobre Imagem e Cibercultura (Labic), acredita que a incerteza do cenário eleitoral brasileiro neste momento estimula a produção das fake news. Ele compara o período de campanha deste ano com a greve da Polícia Militar do Espírito Santo, em fevereiro do ano passado, e avalia que foi ainda mais dramática por causa da quantidade de notícias falsas que circulou durante a paralisação.

“Naquele momento havia um clima de incerteza e uma ambiguidade das próprias autoridades”, afirmou Malini. “De certa forma, as eleições de outubro apresentam esse vazio, um jogo jogado nas sombras, em que os próprios políticos não sabem qual o futuro. Não há a menor dúvida que será um ambiente fértil para as fake news”, completou.

Risco externo

Se a guerra entre os candidatos será repleta de fake news, o Brasil ainda parece estar livre de ataques de fora, como ocorreu nos Estados Unidos. “Não acredito que não exista aqui um interesse internacional para se movimentar uma estrutura daquelas para interferir na eleição daqui. Agora, que a gente vai ter uma enxurrada de fake news interna, não há a menor dúvida”, afirmou Eugênio Ricas, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal.

Na última sexta-feira, Ricas se encontrou com o representante do FBI, a agência norte-americana responsável por crimes federais. A corporação atua nas investigações sobre os ataque dos russos na última eleição que elegeu Donald Trump. Integrantes da Polícia Federal e do FBI iniciaram conversas para um acordo de cooperação e troca de informações. Tal ação deve municiar os agentes brasileiros para trabalharem durante a campanha brasileira, na tentativa de caçar os mercenários.

A primeira experiência de Ricas com ataques coordenados de fake news também ocorreu na greve da PM do Espírito Santo, no ano passado. A metralhadora digital de mercenários foi apontada para o policial. Naquele período, Ricas era secretário de Justiça do estado. “A quantidade de fake news era surreal, uma coisa criminosa contra a sociedade.” Na manhã de sábado de carnaval, ele deu uma entrevista contra “o terrorismo” de Estado. Menos de quatro horas depois, Ricas e parte da família foram vítimas de um doxing, como é chamada a prática virtual de pesquisar e distribuir de forma viral os dados pessoais de alguém. As investigações do crime ainda estão em andamento, com pistas apontando para políticos e até mesmo para o lobby da indústria armamentista.

Em entrevista ao Correio, o escritor Misha Glenny, autor de Mercado sombrio — o crime e você (Companhia das Letras), afirma que o Brasil não está preparado para a guerra. “Quando você olha para os Estados Unidos e para o Reino Unido, você percebe que, mesmo filtros e barreiras sofisticados, falharam”, disse ele. “E o Brasil não tem nem mesmo esses artifícios.” Glenny vê uma única vantagem a nosso favor em relação ao combate às fake news. “A única vantagem significante do Brasil em relação às fake news é a língua portuguesa. Os brasileiros conseguem perceber quando algo não foi escrito em português corretamente”, afirmou ele. “Mas, em termos de infraestrutura de proteção contra as fake news, o Brasil não está em uma posição muito favorável.” Que venham as eleições. (LC)

05

Sem preparo

“Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo”

A primeira frase de Tomorrow never knows, dos Beatles, ainda espoca na cabeça do perito criminal R.S.. Assim como na música de Lennon e McCartney, a mente deve estar desligada de tudo, apenas focada na investigação. É o que acredita o homem com pouco mais de 35 anos, um especialista no combate a crimes cibernéticos. E, naquele dia, há pouco mais de cinco anos, R.S. tinha em mãos um caso intrincado envolvendo ameaças a uma autoridade da República.

A primeira tarefa de R.S. era descobrir o IP, o tal do endereço de protocolo de internet, que ligaria o e-mail criminoso a um computador. Até ali, tudo parecia fácil demais. A própria empresa de correio eletrônico forneceu os dados depois de um pedido formal da Justiça. O mapa levava investigadores a um estabelecimento comercial na periferia de Brasília, onde funcionava uma lan house, aquelas casas que se tornaram uma febre no início dos anos 2000, antes de os celulares fazerem o que fazem hoje.

Logo você vai entender o significado do que está dentro

Tomorrow never knows é a última faixa do disco Revolver, lançado em 1966, e R.S. é fascinado pela mistura de efeitos inéditos criados em estúdio pelos engenheiros de gravação, comandados por George Martin, em conjunto com Lennon e McCartney. Ponto. Na lan house, começava a tarefa mais difícil de R.S.. Achar, no meio de várias máquinas, aquela que cuspiu o e-mail com as ameaças. Uma operação de tentativa e erro, até que fragmentos de transferências de arquivos de um dos computadores levaram a pistas e, por fim, a provas. O criminoso havia cometido um erro básico ao buscar, na mesma máquina que fez as ameaças, um processo anterior em que era acusado pela autoridade da República. Ao ligar os dois casos, bingo. Trabalho encerrado.

Crimes

O sucesso de investigações como a de R.S. e a especialização de agentes e peritos em crimes cibernéticos ao longo dos últimos 10 anos — como os casos contra o sistema financeiro e de pedofilia — é o único alento para o maior desafio do Estado nas eleições: o ataque dos produtores de fake news com base nos impulsionadores de conteúdo nas redes sociais. Os casos resolvidos e denunciados até agora são de um amadorismo atroz do lado dos autores das fake news. É como se um delinquente deixasse no local do crime a própria carteira, com nome, endereço, CPF e foto. Veja, por exemplo, o caso envolvendo o deputado federal Chico Lopes (PCdoB-CE). Em 27 de março, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou Lopes e outras duas pessoas por crime eleitoral. O amadorismo do trio ficou evidente pelos rastros deixados ao longo da produção de uma notícia falsa.

O Correio procurou a assessoria de Lopes, deixando telefones para contato, mas não recebeu resposta nas últimas duas semanas. A partir da própria denúncia de Dodge, porém, é possível fazer a reconstituição do crime, segundo o Ministério Público. Durante a campanha de 2016, o trio acusado teria difamado o prefeito de Santos (SP), Paulo Alexandre Barbosa, para favorecer a candidata Carina Vitral, do mesmo partido de Lopes. A partir da fabricação de um site, o Caiçara revoltado, “foram imputados a Barbosa fatos ofensivos a sua reputação”. As fake news eram impulsionadas no Facebook. Uma delas, citada na denúncia, dizia que o prefeito tinha um caso com o ator Alexandre Frota.

Ao quebrar os dados telemáticos da página de notícias falsas, os investigadores chegaram a um assessor e a um publicitário ligados a Chico Lopes. Pelo menos dois IPs que davam acesso à página estavam vinculados à Câmara dos Deputados, expondo o amadorismo do trio. A trapalhada foi ainda maior. Para impulsionar a fake news nas redes sociais, o grupo fez 12 pagamentos ao Facebook, todos com cartões de crédito com os nomes deles mesmos. Naquele caso, as fake news não tiveram poder para influenciar a campanha. Barbosa acabou reeleito e Carina ficou em segundo lugar. Chico Lopes e os dois acusados foram obrigados a pagar indenização de 100 salários mínimos ao prefeito e cerca de R$ 30 mil a uma instituição de caridade, a Casa de Ismael, na Asa Norte, em Brasília.

“A ignorância e o ódio enlutam os mortos”

Numa tarde quente de Brasília, há duas semanas, R.S. falava com entusiasmo dos Beatles: “Tomorrow never knows foi fonte de influência na música eletrônica também”. Ao falar das fake news, porém, há um certo ceticismo no combate: “Nos Estados Unidos, o próprio FBI levou uma lavada dos russos. Só começaram a entender quando o estrago já estava feito”. Uma equipe norte-americana chegou a participar de reuniões no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na Polícia Federal. Hoje, a corporação brasileira tem uma cartilha e uma equipe especial para o combate às fake news. “A ideia é criar um protocolo de investigações, pois não temos certeza de como serão os ataques no Brasil”, afirmou o delegado Thiago Borelli Thomaz, coordenador da equipe que trabalha na sede da PF, em Brasília. Hoje, não há nenhum caso sob investigação por ali. Pelo menos por ora.

Um dos cases da Polícia Federal é a Operação Voto Livre, deflagrada em março, no Espírito Santo. A ação foi desencadeada depois de denúncia sobre a circulação de pesquisas eleitorais falsas em grupos de WhatsApp. “O problema é que sempre reagiremos a uma denúncia”, disse um investigador. A diferença para as investigações de crimes cibernéticos, como a pedofilia, por exemplo, é total. Em 2008, a Polícia Federal criou um software, que, a partir de palavras-chaves, é possível identificar a troca de arquivos entre pedófilos. Com as mudanças na legislação nos últimos anos, que criminalizou não apenas o envio do material contendo fotos de crianças, mas a posse, as investigações avançaram. No caso das fake news, tal coisa parece distante. Será o que os peritos chamam de investigação post morten.

Mercenários

Em 20 de janeiro, o Correio iniciou a série de reportagens “Fake News, a verdade sob ataque”, a partir do relato de três produtores de notícias falsas. Com alto conhecimento de tecnologia e marketing político, esses homens são contratados por políticos a partir de estruturas secretas, distantes dos comitês oficiais de campanha. Com uma equipe de no máximo 20 pessoas, formadas por ex-jornalistas especializados em investigações, técnicos em informática, atores, dubladores — capazes de imitar 30 vozes de políticos e celebridades — e até policiais militares. As tarefas vão desde embaralhar IPs, disseminar conteúdos a partir de perfis falsos, criar grupos sociais, impulsionar as redes com cartões de créditos sem identificação e enviar as fake news por e-mail ou WhatsApp.

“As fake news que marcam as disputas eleitorais contemporâneas são mais uma faceta da evolução do crime”, afirmou o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo. “Para fazer frente a isso, a polícia precisa ser cada vez mais investigativa, científica e menos burocrática. Só assim é possível lidar com esse tipo de crime que depende de investigação de ponta para ser solucionado”, destacou. Para Camargo, os vestígios deixados pelo criminoso devem ser analisados de forma rigorosa e isenta para podermos coibir e punir esse tipo de ação. A aposta dos investigadores será derrubar o primeiro búfalo de uma manada. “Será qualquer búfalo, mesmo que seja um simples usuário, que está longe do grande jogo das fake news”, disse R.S..

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O jogo das farsas

Durante a Segunda Guerra, no início dos anos 1940, os aliados criaram um exército falso, “comandado” pelo general norte-americano George Smith Patton Jr. A tentativa era despistar os nazistas, chamando a atenção para Pas-de-Calais, na França, quando, na verdade, a estratégia era invadir o território inimigo pela Normandia. Nas proximidades de Dover, do outro lado do canal na Inglaterra, foram feitas algumas encenações, a partir de equipamentos falsos, manequins representando soldados, comunicações trocadas e agentes duplos.

O episódio é lembrado pelo promotor Frederico Meinberg — coordenador da Comissão de Proteção dos Dados Pessoais do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que conta com mais quatro integrantes — para mostrar uma das estratégias das campanhas recentes de Emmanuel Macron, na França, e Angela Merkel, na Alemanha, na tentativa de se defender de interferências externas. “Foi quase um trabalho de guerrilha, de guerra tradicional”, afirmou Meinberg na tarde da última quinta-feira, durante entrevista no nono andar do prédio do MPDFT.

“Eles criaram, para se ter uma ideia, QGs de campanhas falsas para que fossem, propositadamente, vítimas de hackers russos”, disse Meinberg. Assim como na campanha de Hillary Clinton, espiões cibernéticos supostamente ligados a uma agência militar da Rússia tentaram invadir os comitês de Merkel e Macron, usando truques de phishing, a pescaria de dados, mas deixando rastros para investigadores perceberem um protocolo comum de ataques.

Além disso, Macron e Merkel gastaram dinheiro com a checagem de notícias falsas. “Quando subia uma fake news, eles já entravam com conteúdos, com links contra a postagem falsa”, lembrou o promotor. O detalhe: o combate foi das próprias campanhas. Mas as estruturas dos Estados também começaram a se mexer, como no caso da Alemanha, que aprovou, em dezembro do ano passado, uma legislação mais dura e realista sobre os crimes na internet. No Brasil, estamos distantes de tudo isso. Meinberg está à frente da investigação sobre os tentáculos da Cambridge Analytica no Brasil. A empresa, com o Facebook, é investigada nos Estados Unidos por uso indevido de informações de 50 milhões de perfis da rede social. O caso levou o fundador da companhia, Mark Zuckerberg, a depor no Congresso dos Estados Unidos.

O promotor não comenta a investigação aberta no Brasil. O responsável pela parceria com a Cambridge por aqui disse que encerrou o contrato e a própria empresa garantiu ter finalizado as atividades. “A empresa, na verdade, se chama SCL Elections. A Cambridge era o braço de operação nos Estados Unidos da América. A holding era a SCL, que tinha a parceria no Brasil. Então, você falar que a Cambridge encerrou as operações é uma coisa. Mas temos de nos perguntar se a SCL encerrou as operações”, afirmou.

Um dos problemas no combate às fake news por aqui está na legislação brasileira. São poucas formas de punir os autores de notícias falsas, algumas com mais de 30 anos de vigência. O Código Eleitoral, que trata da divulgação de informações inverídicas, é da década de 1960, o Penal, que prevê os crimes de injúria, calúnia e difamação, dos anos 1940. E a Lei de Segurança Nacional, de 1980, por fim, prevê punições para quem difundir boatos que causem pânico. “A discussão no Brasil é feita pelo ângulo errado. O maior problema se chama impulsionamento de conteúdo”, afirmou o promotor. Com a minirreforma política no ano passado, o Brasil permitiu o impulsionamento por parte de políticos e coligações. Mas não há qualquer regulação efetiva.

“A partir do que se viu até agora, o TSE não baixou nenhuma resolução nesse sentido”, criticou o promotor. O Correio entrou em contato com a assessoria do presidente do tribunal, ministro Luiz Fux. A resposta foi que a fonte para falar sobre notícias falsas na Corte era o próprio Fux, mas, após o primeiro contato, na segunda-feira, o magistrado não tinha disponibilidade de agenda. Uma nova tentativa foi feita na tarde de sexta-feira, também sem sucesso. Sobre a política de impulsionamentos, o Facebook deve estrear no Brasil antes das eleições, em junho, um recurso chamado “exibir anúncios”, que permitirá ver todas as publicidades que estão sendo feitas por uma página, mesmo que ela não apareça no feed de notícias do usuário.

No mesmo mês de junho, o Facebook planeja lançar um arquivo de anúncios políticos para pesquisa pública. A intenção, além de mostrar texto e imagem, é apresentar valores gastos e as informações demográficas do público-alvo de cada anúncio. Em resposta aos questionamentos do Correio sobre a política oficial de impulsionamento, o Facebook enviou a seguinte nota: “Estamos comprometidos em aumentar a transparência dos anúncios políticos em todo o mundo, inclusive no Brasil, e temos anunciado medidas concretas para dar mais informação às pessoas sobre os anúncios que elas veem. Também estamos cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança on-line.” (LC)

Seminário

O Correio promove no próximo dia 24 um debate sobre fake news e eleições, no auditório do jornal, com a presença dos maiores especialistas no tema. A abertura das inscrições será informada em breve no site do jornal.

entrevista / FREDERICO MEINBERG
Promotor e coordenador da Comissão de Proteção de Dados Pessoais, do MP-DFT

Estamos preparados para enfrentar as fake news nas eleições?
A discussão sobre fake news no Brasil é feita pelo ângulo errado. Fake news numa eleição vai representar 25% do problema. O grande problema que teremos se chama impulsionamento de conteúdo. Foi isso que bagunçou a eleição no EUA, não apenas fake news. Mas voltamos todas as armas no Brasil para isso. E assim temos uma maneira errada de regular.

Como fazer isso?
Com a minirreforma política no ano passado, o impulsionamento de conteúdo se tornou legal. E o que é isso? O candidato chegar para o Facebook e dizer: eu quero atingir homens, da região Sudeste, como viés político X. Assim, paga-se um tanto para o Facebook, e a minha propaganda política vai atingir aquele perfil. Isso não quer dizer que o Facebook está entregando dados para o candidato ou a coligação. É só selecionar o público que você quer atingir. Isso nunca foi problema. O que foi problema? A eleição do Obama funcionou muito bem. Mas a do Trump foi além. E aí entra a Cambridge Analytica fazendo os psicográficos, que não é só aquele menu que o Facebook está entregando, não. A grande maestria do Trump foi não perder tempo com negros, homossexuais, latinos, que eram eleitores difíceis para ele, por mais que ele lutasse, gastasse com impulsionamento de conteúdo etc. Então, o sucesso dele foi focar no eleitor caucasiano, religioso e do interior dos EUA.

E por que não conseguimos avançar?
O viés no Brasil é: “Ah, o sujeito está produzindo fake news e isso está aparecendo no meu feed de notícias”. Nada mais errado, não é isso que bagunça o jogo democrático. O primeiro relatório de indiciamento dos 13 hackers russos, feito pelo Robert Mueller — o investigador especial responsável por apurar a influência russa na eleição dos EUA — mostra que as fake news não atuam da forma que a gente acha. Se a notícia falsa chega no feed de notícias, não vai mudar a percepção do cara de imediato. Fake news aqui só vai funcionar como funcionou nos EUA se você tiver impulsionamento de conteúdo. Aqui no Brasil trabalhamos com essa coisa de fake news de uma forma quase ingênua. Você não ganha eleição com fake news, você faz o seu inimigo político perder votos. Agora o impulsionamento de conteúdo é o que ganha uma eleição. E não necessariamente com fake news.

E quando você junta as fake news com o impulsionamento numa só estrutura?
É uma bomba-relógio. O resultado disso foi a eleição dos EUA e a saída da Inglaterra da União Europeia. Você une as duas coisas. Na minha opinião, o TSE teria de exigir o rastreamento de quem está colocando dinheiro para impulsionar conteúdo.

Mas isso é possível?
Se você criar mecanismo, sim.

Quais?
O Google, por exemplo, lá fora, tem uma série de exigências. Se você vai impulsionar conteúdo no Youtube, você não vai poder impulsionar em outro país. O segundo corte, você tem de ter uma identificação, um CNPJ da coligação, um CPF daquele candidato. Você vai criando camadas de proteção. E não a loucura que foi a eleição nos EUA, onde você tinha gente impulsionando conteúdo pagando em moeda russa, na Rússia.

E aqui, como resolveria?
O IP da conexão teria de ser um IP brasileiro, primeiro requisito, com todas as empresas que podem impulsionar. Hoje, os grandes players que podem impulsionar são o Google, por meio do Youtube, Twitter e Facebook, aqui com WhatsApp e Instagram. Eles têm de criar mecanismos para que se saiba quem está pagando e se está vindo do Brasil. Agora, imagina, tem lógica o candidato do Recife sendo impulsionado em Bagé? A legislação diz: candidato ou coligação. Mas que coligação é essa que o cara está impulsionando de Bagé?

Mas isso parece não ser discutido…
A partir do que se viu até agora, o TSE não baixou nenhuma resolução nesse sentido.